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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

1/3 - Os dois desertos e a única floresta - Conto de Paulo AVELINO

Abdul Al-Wazahari bradou na décima-sétima [e a segunda mais estranha] de suas Crônicas que no dia de hoje [15 de Muharram da Hégira] três homens tiveram ao mesmo tempo três sonhos cada. [O fato de nenhum dos três lembrar nada dos dois primeiros sonhos e do cronista não registrar o ano em que tal acontecimento se deu em nada aumenta a credibilidade de sua história.] No terceiro dos sonhos, um Fhiurzzim [equivalente ao gênio das Arábias] mostrava sucessivamente um descampado com alguns pedregulhos; um capinzal com arbustos que não passavam de um palmo; e uma selva tão  fechada que os povos que viviam no chão não tinham nenhuma ´tradução para a frase “luz do sol”, pois não a conheciam.

[Como costuma acontece em tais sonhos] uma voz se ergueu – disse que Amhitar fora e seria todas essas fases – e cabia aos homens descobrir quando e em qual ordem – e então cada um dos homens acordou.

Tal relato teria ficado como um delírio do grande cronista se seis séculos depois Ramsheed-Barumi-N´gaar, um francês batizado de Augustin de Saint-Hilaire, não a tivesse levado surpreendentemente a sério. Durante duzentos dias [e levado por sua energia juvenil] teria cavoucado o solo do Amur-Daria atrás de fósseis de grandes árvores. Não as encontrando, interpretou as crônicas ao reverso e concluiu que a floresta se situava exatamente do outro lado do mundo, e foi buscá-la. Dizem que a encontrou, embora tal afirmação não seja incontroversa.

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Este conto faz parte da série de 366 contos do gênero fantástico Efemérides de Amhitar, publicada ao longo de 2013, todos com um máximo de 1500 espaços.

O auditor Paulo Avelino atua na Secretaria Regional do Ceará e escreve contos e Direito Administrativo. É um dos coordenadores deste blog.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Livro: Marcos, de Dag Hammarskjold - Resenha de Paulo AVELINO

A Espiritualidade do Burocrata

HAMMARSKJÖLD, Dag. Marcos. Tradução de W. H. Auden. Prefácio de Jimmy Carter. Nova Iorque: Vintage Books, 2006. 222p.

A Vida de Simplicidade abre para nós um livro no qual nunca somos capazes de passar da primeira sílaba e do homem que escreveu isso dificilmente se pode afirmar que teve uma vida simples.

Dag Carl Hammarskjöld nasceu em 1905 cercado de privilégio, desde o pai, antigo primeiro-ministro da Suécia. Doutor em Economia aos vinte e cinco anos, começou uma carreira de funcionário público profissional, desenvolvida principalmente dentro do banco central sueco. Depois da Segunda Guerra entrou na esfera internacional, representando seu país nos planos de reconstrução da Europa e como membro da delegação sueca junto às Nações Unidas.

Carreira esta que atingiu seu auge quando para sua surpresa o Conselho de Segurança da ONU recomendou seu nome para Secretário-Geral da organização. Foi eleito em 10 de abril de 1953.

O líder da ONU deveria navegar em um mundo partido em dois blocos liderados por potências nucleares e em geral o sueco conseguiu contornar bem os obstáculos. Que se tornaram ainda maiores quando as antigas colônias africanas entraram em processo de formar novos estados nacionais – nem sempre de maneira pacífica.

Entre os conflitos que pululavam o Secretário-Geral da ONU voava de um lugar a outro no continente africano, em busca de acordos de cessar-fogo. Em uma dessas viagens o Douglas DC-6B no qual viajava estatelou-se no chão na Zâmbia em 18 de setembro de 1961, deixando suspeitas de atentado que perduram até hoje.

Entre seus papéis encontraram uma carta a um amigo seu, outro funcionário público sueco. Dag deixava para o amigo as suas anotações pessoais. Este publicou-as e o resultado é o livro Marcos.
Hammarskjöld conheceu virtualmente todas as pessoas importantes de sua época, de presidentes a reis. Viveu na segurança e no conforto. No entanto seu diário não fala de política e se fala de sucesso é para se referir à sua falta de sentido. O livro trata das minhas negociações comigo mesmo – e com Deus.

Marcos não possui uma unidade – são pensamentos soltos, pequenos poemas, textos de dez ou quinze linhas que o autor acumulou desde a juventude. A temática lhe fornece a coerência. O homem que vivia em hotéis de luxo e banquetes e negociações de alto nível escrevia à noite algo como: Que Deus tenha tempo para você lhe parece tão certo quanto o fato de que você nunca tem tempo para Ele. Ou: Tudo no presente momento, nada para o presente momento. E nada para seu futuro conforto ou para o futuro de seu bom nome. Ou: Em muitas matérias a profunda seriedade só pode ser expressa em palavras leves e divertidas. Ou: não somos nós que buscamos o caminho – é o Caminho que nos busca.


Dag Hammarskjöld viveu a burocracia no que ele tem de mais tradicional – carreira, estabilidade, negociação. Os problemas que tentava resolver quase nunca o atingiriam pessoalmente. Mas empenhava-se em resolvê-los, pois era sua missão burocrática. E, para esse burocrata, a burocracia incluía também o espiritual.

terça-feira, 28 de abril de 2015

06 de Abril: A Fundação da Academia - Conto de Paulo AVELINO

Serguei depois confessaria em suas Memórias que, ao subir à Tribuna [discurso à mão naquele 6 de abril de 1933] duvidou da existência do futuro. Não se tratava ­­­ - diz na página 99 – de medo de desaparecimento individual ou de cataclismo que engolfasse o último homem. Mas de que algo além daquele momento viesse a existir ou tivesse existido.

O Partido fundava a Academia Soviético-Proletária da Ásia Central no rastro do fechamento da Academia de Ciências de Amhitar a 25 de fevereiro, esta criada seis décadas antes pelo lendário [e romântico] historiador Dilafruz Michelet e acusada [como seu fundador] de romantismo [além de decadência intimista e burguesa].

O Soviete Supremo chamou o geógrafo Serguei Mikhailovitch Kovinev [espichado, cara chupada e barbicha] para presidir a nova agremiação. Neto do médico Alexander Kovinev, Serguei herdou do avô uma intensa fé no ateísmo [ao ponto de ter sido flagrado duas vezes de joelhos e mãos postas orando para o deus inexistente – embora o testemunho não seja incontroverso].

Igualmente conhecida era sua fé no futuro. Curiosamente, na frente do Comitê Central e do Comando Regional do Exército Vermelho e da Confederação dos Sindicatos tal convicção fraquejou. Dúvidas como essa fizeram com que suas Confissões por motivos políticos fossem restritas a uma tiragem de 777 exemplares, o mais barato deles hoje valendo dez mil rublos nos sebos de Moscou.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

09 de agosto - Sid Gaut - Conto de Paulo AVELINO

E Sidarta Gautama ultrapassou os portões de Amhitar! Acompanhavam-no sete pombas (símbolo do atrevimento), sete virgens (símbolo do futuro), sete nuvens (símbolo da transição) e sete monges (símbolo da permanência). Cruzou oito rios, subiu nove montanhas e, na beira de dez lagos, encontrou onze figueiras, com ramos que se espalhavam por doze países.

Sentou-se e não fez a posição de lótus para decepção dos 776 que então já o seguiam. Não sorriu e nem chorou [embora metade dos testemunhos tenham dito que sorria, e a outra metade que chorava]. Olhou a paisagem [que para uns era belíssima, e só um grande homem poderia ter escolhido um lugar tão maravilhoso; para outros era um recanto tosco, e apenas a presença da centelha da divindade o fazia cheio de esplendor]. Seus olhos semicerraram. Não falou, não fez.

E cinco milênios se passaram [na percepção talvez não muito literal das pessoas que o seguiam]. Levantou-se [e os quatro grupos de sete que o acompanhavam levantaram-se também]. Calçou as sandálias, refez o caminho dos lagos, das montanhas e dos rios e foi embora em seu destino.

Um menino [dizem] o fez falar. Perguntou o que pensou debaixo da figueira. As versões se dividem. Uns, que ele disse não pensar em nada. Outros, que nada disse: sorriu e prosseguiu com seu caminho e suas sandálias. Outros, que ele afirmou que não se pode se pode pensar no nada, pois o Nada também é uma coisa, e pensar em Nada não é pensar em Nada.

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Este conto faz parte da série de 366 contos do gênero fantástico Efemérides de Amhitar, publicada ao longo de 2013, todos com um máximo de 1500 espaços.

O auditor Paulo Avelino atua na Secretaria Regional do Ceará e escreve contos e Direito Administrativo. É um dos coordenadores deste blog.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

28 de Abril - Doze balas sob a pele de Siobhan Behruz - Conto de Paulo Avelino

Doze balas sob a pele de Siobhan Behruz estreou hoje em 1923 no Cine-Teatro Revolução de Outubro [antigo Ópera Czar Nicolau II] e a multidão que o lotava [embora inicialmente tentasse obedecer ao cartaz que informava ser o filme um drama histórico] acabou por rir.

Siobhan Behruz traiu seu país passando-se para os invasores Turkhmans. Expulso o inimigo, o povo o julgou e condenou ao fuzilamento [diz a lenda]. O filme retratava rigorosamente tal história [e o público seguia com sobriedade (e bocejos)] até que surgiu em cena o próprio Siobhan: a cara de fuinha [além dos discursos que choviam perdigotos], a pince-nez e barbicha e o cabelo para trás empapado de goma puxaram um vagalhão de gargalhadas: o anti-herói conseguia ser uma mistura de Lênin, Trotski e Stalin, os três ao mesmo tempo.

Para expor a vulgar banalidade do vende-pátria, o filme o colocava dizendo só banalidades. O problema é que quando Siobhan dizia Preciso de um copo de vodca, pois um traidor do povo sempre cede à tentação da ebriedade! ou Vou agora satisfazer a minhas necessidades fisiológicas do tipo sólido [ou do tipo líquido] o público, em vez de enojar-se do malfeitor, ria dele.

O filme [embora fracasso ideológico] arrastou o público. O Comitê Central [provisório] do Turquestão acrescentou um texto inicial que o filme não apresentava nenhuma semelhança com nenhum prócer da Revolução Proletária. Como tal aviso teve efeito contrário, o Comitê o retirou.



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O auditor Paulo Avelino atua na Secretaria Regional do Ceará e escreve contos, literatura digital e Direito Administrativo. É um dos coordenadores deste blog.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

24 de maio - A Séria Nudez - Conto de Paulo AVELINO

No dia 24 de maio de 1923 Juju Shilmora [mostrando ousadia da qual um par de segundos antes não se sentiria capaz] desfez o laço da falsa cintura. O négligée cinza se amontoou aos seus pés e a partir de então só o flash da filmagem cobriu sua nudez de vinte e um anos cabelos na cintura e olhos negros – entrou para a história como uma das únicas sete garotas que posaram nuas em Amhitar até 1990. A estatística [de confiabilidade sofrível] se deve ao atual Círculo Pudico-Moralista de Amhitar.

Certo relatório da Seccional do Turquestão afirmou então que as moças do país se marcavam pela timidez quanto a certos assuntos – e o país pela baixa natalidade. As trêmulas mãos de Lênin garrancharam ordem para um filme de propaganda nas escolas femininas.

O filme consistia só em uma voz em off exaltando o potencial da mulher para a revolução, o trabalho e também para certos rituais a dois que não deixam de trazer satisfação desde que subordinados aos propósitos do proletariado - enquanto a câmera rodeava por onze vezes o corpo [perfeito, segundo extáticas testemunhas] da jovem. Olhando firme a câmera [com quase orgulho] Juju encerrou levantando o braço [e balançando leves os seios morenos] e gritando Viva a Revolução!

Em janeiro do ano seguinte o resultado foi mostrado a Lênin. A versão de que foi isso que causou o derrame que o matou, embora apócrifa, não deixa de acariciar o ego amhitariano.


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terça-feira, 16 de setembro de 2014

11 de Setembro - Lenda Roqueira - Conto de Paulo AVELINO

Tricia, Carolyn, Brittany e uma única com o nome afrancesado de Michelle não se chamavam assim, nem de perto. [Fizeram questão de enterrar seus típicos nomes centro-asiáticos sobre toneladas de esquecimento] e essas quatro jovens [nenhuma tinha mais de 21] abalaram a cena underground do país hoje em 1970. A baixista Brittany, a guitarrista Michelle, a vocalista Carolyn e a baterista Tricia com seu rock pesado e extravagante trouxeram a cultura do Sexo, Drogas e Rock´n´roll para a Ásia Central.

Isso na lenda.

Excetuando-se o apoio do filósofo da contracultura amhitariana Utkirbek Lennon, bem pouco liga as garotas a nada que parecesse uma vida mais livre. [E as notícias de que o barbudo filósofo realizava ações pouco recomendáveis com elas são desmentidas pelo fato de que Utkirbek na época passava 200% do seu tempo alto – sem que isso se referisse às elevadas montanhas do planalto do Pamir]. De fato o som das meninas era bem macio – suas canções falavam de amores de fim de tarde e no máximo de beijinhos roubados em festas adolescentes.

Nada disso impediu a lenda [que rolou como bola-de-neve] de quatro messalinas asiáticas em festas estritamente proibidas para pessoas que dessem o mínimo valor à inocência. Mas na verdade o primeiro conjunto roqueiro feminino amhitariano tinha o inocente nome de Amhitar Cor de Rosa, e suas quatro componentes [dizem] dormiam agarradas com ursinhos.



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terça-feira, 2 de setembro de 2014

14 de Agosto - Len - Conto de Paulo AVELINO

E Utkirbek Rahman recebeu a visita de Jesus Cristo! O profeta adentrou pela janela do seu apartamento [décimo-terceiro andar do edifício Os Mistérios da Nova Amhitar]. Acomodou-se no sofá, cruzou as pernas, ajeitou os pequenos óculos redondos e pediu uma guitarra elétrica [Utkirbek só tinha um violão] e três gramas de uma substância proibida [que o anfitrião não possuía – a polícia política confiscara uma parte e Utkirbek acabara de queimar o resto].

Jesus cantou baladas até bobinhas de garotas lindas pela qual supostamente estaria apaixonado, falou de embarcações amarelas e mandou imaginar um mundo novo [algo estranho para quem pode criá-lo, mais estranho ainda que o carregado sotaque inglês que trazia].

Jesus falou não em três [trindade], mas em quatro pessoas [das quais ele mesmo seria um] naquele agosto de 1969. Pronunciou para um atarantado Utkirbek a misteriosa frase

Sou mais popular do que eu mesmo.

Devolveu o violão, coçou o nariz debaixo dos óculos e desapareceu tão macio que o anfitrião nunca soube como.

Só soube [logo que o outro dera as costas] que não foi o Profeta que o visitara [de resto nisso não haveria grande mérito – não são poucos os que relatam ter visto Jesus].

Utkirbek entendeu – Ele o visitara. E decidiu dedicar sua vida a seguir os passos dele. Rahman não mais existia – ele agora era Utkirbek Lennon, um dos poucos a ter visto John – ao menos tão de perto e com tal nível de franqueza.

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terça-feira, 29 de julho de 2014

27 de Março - Eu te amo boa noite - Conto de Paulo AVELINO

Iroshka Maruf [a poetisa] desapareceu hoje [uma noite tempestuosa] em um dos dois únicos penhascos à borda do lago Sarygamysh [o fato de existir outro penhasco não é irrelevante] com a idade de dezessete anos e dezessete dias [uma coincidência que não deixou de provocar misticismos numéricos] no ano 1900. Seus pais, avós, as três únicas amigas e mil e duzentos apaixonados por poesia que amavam seus livrinhos O Dicionário das Delicadezas, És meu deus e meu daimon e Gatinhos de doce porcelana a choraram como se morrera [e de fato a polícia política czarista ordenou que se a considerasse morta para evitar qualquer outra conotação ao evento].

Iroshka desde os onze anos postava cartas, das quais metade para si mesma e o restante para alguém que nunca se soube [apesar das hipóteses a respeito]. Seus sonetos falavam de amores tão belos que é melhor que nem existam, e de Almas gêmeas próximas e distantes como em labirinto.

No dia em que desapareceu Iroshka acariciou duas vezes seu cachorrinho, soprou um beijo para sua avó paterna [minha fada de óculos] e deixou sobre a mesa uma frase Eu te amo eu te amo boa noite. Três pescadores afirmaram tê-la visto sobre o penhasco contra a luz dos relâmpagos, estendendo os braços. Sobre o outro penhasco, outra figura, um belo jovem, olhando-a como em alegria melancólica de tão grande. Isso não deixou de adicionar adoração à memória da jovem poetisa.

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Este conto faz parte da série de 366 contos do gênero fantástico Efemérides de Amhitar, publicada ao longo de 2013, todos com um máximo de 1500 espaços.

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terça-feira, 22 de julho de 2014

17 de julho: Os sonhos - Conto de Paulo AVELINO

Baixo [mais até que nas fotos] bigode encerado e capote cinza, o Chefe entra no elevador. Arrasta a voz:

- Como vai o aço, camarada?

- Vai bem, Camarada Secretário-Geral. A produção aumentou 200 por cento.

-E o petróleo, camarada?

- Vai bem. A produção aumentou 300 por cento.

-E o algodão, camarada?

- Vai bem. A produção aumentou 400 por cento.

-E este elevador?

- É o mais moderno, Camarada Secretário-Geral. Um orgulho da indústria Soviética.

O Chefe cofia o bigode. A voz arrasta o dobro:

- Este elevador está parado, camarada. Até você está me traindo.

E o camarada acordava, o suor a gelar o travesseiro.

Sete membros da cúpula do Partido alegaram [posteriormente e de forma não totalmente verossímil] ter tido o mesmo pesadelo na véspera da visita do Generalíssimo I. V. Stalin a Amhitar hoje em 1947. Iria inaugurar mais conquistas da Revolução Proletária e de quebra, ser o primeiro a passear no primeiro elevador do país, que constava do primeiro arranha-céu [do alto de seus nove andares].

A vinda detonou pesadelos para os burocratas do Partido e ameaças para jovens mecânicos, advertidos 999 vezes de que tudo deveria funcionar, senão...

Senão Nada. Stalin não veio. A explicação oficial é que assoberbado por uma complexa conjuntura externa, o Guia Genial dos Povos teve de se privar deste importante périplo. [A explicação não-oficial – que um caviar de esturjão estragado o prendeu ao banheiro do Kremlin – é considerada por demais humilhante ao país].


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terça-feira, 8 de julho de 2014

O duplo - Conto de Paulo AVELINO

Ernesto Guevara [dizem] nunca teria se tornado Che se [em certa noite de nuvens negras de 3 de setembro de 1946] não tivesse dobrado à direita em um beco sem nome a 50 metros da Calle Corrientes. Ao dobrar, encontrou [segundo os dois únicos relatos a respeito, ambos (previsivelmente) de videntes] uma garota [de brincos vermelhos e obviamente belíssima] que levou o [desengonçado] ginasiano a passear por uma tranquila Buenos Aires.

O Obelisco lembrou a ela do sacrifício do profeta da Judeia [segundo ela, tão portentoso quanto inútil]: os perigos do Excesso de Retidão [disse com seriedade mais sedutora que um sorriso]. Caminharam [ela virava o rosto ao passarem por um solitário mendigo] com carinho e tristeza mais profundos que a Aurora Austral – essa péssima figura de linguagem ele a escreveu no único poema que dedicou a ela.

E sua imaginação [já ligada à dela] lhe revelou: casariam; teriam sete filhos [nos tempos antes da pílula]; preocupações e êxtase se seguiram – e a morte, em algum hospital em La Plata – não tantas décadas depois assim. Os pobres não teriam seu herói – e não lhes faria falta.

Se tivesse dobrado à esquerda – mas dobrou à direita. A garota ficou a dez metros [o suficiente para nunca se conhecerem]. Ele viu um homem pobre [e não virou o rosto] – e o resto acabou na Sierra Maestra.

Explicam que a garota era na verdade aquele, de rabo e chifres, disfarçado – explicação esta que nunca teve força pois o próprio Che, ateu renitente, nela nunca acreditaria.

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Este conto faz parte de uma série de 100 contos denominada NARRATIVAS MULTILINEARES, premiada pelo Edital das Artes de 2011 da Prefeitura Municipal de Fortaleza. Pode ser encontrada no Blog Avelino – Escritos. Todos os contos têm um máximo de 1500 espaços.

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terça-feira, 17 de junho de 2014

As Imaginações da Geologia - conto de Paulo AVELINO

12 de Abril

As Imaginações da Geologia

O Tratado da Geologia Imaginária de Amhitar [de 1906] não o era [ao menos segundo surpreendente achado de petróleo realizado nos anos 1990 por um consórcio liderado pela Elf Aquitaine e composto pela malfadada British Petroleum e a Braspetro de um longínquo país. Esse consórcio desencadeou a costumeira onda de denúncias de propinas e contas nas Bahamas, etc.].

Assinava-o certo Joseph John New-York e esse nome [melhor, esse pseudônimo] ridículo, junto com menções a lugares como Shagri-lá e Eldorado atingiu o objetivo que o oculto autor queria ou queriam: que os oficiais da censura czarista gargalhassem e não percebessem que o tal Atlas indicava riquezas bem sólidas.

Em torno do paralelo 42, por exemplo, o atlas enxergava [a uma profundidade de trezentos metros] um lago de Néctar do amor das deusas, o que esse título de duplo sentido quisesse dizer. Logo debaixo, porém, indicava uma jazida de petróleo e gás estendendo-se ao sul até o paralelo seguinte. E essa informação [o Consórcio descobriu] era correta. Os afloramentos de Pedras de Apolo ou de Rubis já enfiados em Colares entremeavam-se com jazidas de berilo e cobalto.

Assim como ninguém sabe o nome dos maiores espiões [pois eles nunca foram pegos], desse maior geólogo de Amhitar não se sabe o nome. Uma teoria que o vinculava a uma história de amor e vingança, culminando com uma perseguição e fuga para o Céu revelou-se [como era óbvio] por demais romântica para ser real.

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terça-feira, 25 de março de 2014

O encalhamento do inesgotável navio do Balkash - conto de Paulo AVELINO

03 de Fevereiro

Os cronistas que se debruçaram sobre o assunto [Al-Wazahari Nilufar, Serguei Kovinev e Java Kharlilah, para quem a história depende exclusivamente dos heróis] concordam que a data de hoje, estabelecida para uma tempestade que teria jogado um navio de cinquenta braças contra as praias arenosas do Lago Balkash, é completamente arbitrária. Desde o primeiro registro [o de Nilufar] o barco já estava lá havia muito, sem que os moradores da aldeia ao lado soubessem quanto.

O episódio não teria importância, se os aldeões [nem eles sabiam desde quando] não tivessem o hábito de trocar as madeiras podres do barco, substituindo-as por novas. Até que em certo momento não havia mais madeiras originais no navio. Os letrados do Reino detonaram uma discussão: o navio continua o mesmo ou trata-se de outro navio?

A Escola de Shmharkkand defendia que o movimento não existia, a essência das coisas permanece e o barco era, sim, o mesmo dos tempos do seu infeliz e desconhecido dono. Os cadetes do Grupo da Mudança Inelutável afirmava que a essência se encontra na substância das coisas, e se a substância muda, a coisa também mudará. Como a madeira não era a mesma, o barco também era outro.


A discussão passou dos previsíveis panfletos, artigos e palestras, e quando chegou às facadas o Vizir as proibiu. Java Kharlilah afirma que, se não fosse o teimoso Vizir, já teríamos hoje uma resposta exata, embora tal otimismo esteja longe de ser unânime.

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O auditor Paulo Avelino atua na Secretaria Regional do Ceará e escreve contos e literatura digital. Coordena este blog.

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