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terça-feira, 10 de novembro de 2015

Amor Canino - Crônica de Marcos VALÉRIO


AMOR CANINO
* Texto de Marcos Valério Benelux

A moça já esperara uns dez minutos na recepção do pet shop. Até então, reclamara pelo que chamou de desrespeito, pois que estava no horário marcado para entrega; agora mesmo criticara a falta de planejamento, enfim, indispusera-se com todos os atendentes, quando, por fim, o funcionário traz seu cachorro nos braços, devidamente banhado, penteado, perfumado, e lhe diz à queima-roupa:

- Seu cachorro não está com nada!
- Ora, seu atrevido! – gritou ela. - Está querendo se vingar só porque falei o que devia falar? Pois saiba que isso é assédio moral. O pobrezinho ouviu a ofensa e pode se deprimir.
- Calma! A senhora está muito exaltada!
- Senhora é a vovozinha, seu moleque! Eu só tenho vinte anos e nem casada ainda sou.  
- Pelo amor de deus! – clamou o atendente.
- Não me venha com apelação religiosa, pois eu não tenho nenhuma religião.
– A senho... Você está fazendo confusão. Tenha pelo menos respeito com os outros clientes.
- Confusão eu vou fazer se você não engolir o que acaba de falar do meu cachorro – esbravejou. - Ora, onde já se viu! Eu reclamei porque vocês são um bando de incompetentes. Quer revidar, revide em mim, não no cachorro que não tem nada a ver com isso! É uma pobre criaturinha indefesa.
- Eu só transmiti o que me foi dito – assegurou o rapazinho. – Portador não merece pancada.
- Então quem lhe mandou falar esse absurdo? – inquiriu a moça, ameaçadora. – Quem quer que tenha sido, vai ter de pedir desculpas ao pobrezinho do Virilha (esse era o nome do cãozinho).
- Me poupe, madam... cidadã! – estranhou o jovem – Por que e como alguém vai pedir desculpas ao seu cachorro?
- Na língua dele, ora! latindo e balançando o rabo. E ai de vocês se ele não aceitar o pedido de desculpas!
- A douto... Você só pode estar brincando!
- Brincando!? Eu!? Você não sabe com quem está falando, ô, rapazinho. Vamos lá! Desembucha logo: quem falou esse absurdo do meu cãozinho Virilha?
- Foi o veterinário. A propósito, ele ainda está lá em cima.
- Ah! – respirou fundo a moça, com ar de vitória. – Essa eu não perco por nada! Me chame imediatamente esse atrevido, que eu quero falar com ele. No mínimo, uma ação judicial o aguarda.
O rapaz subiu, o veterinário voltou meio pálido, sem entender o que se passava.
- Então foi o senhor que teve a coragem de comentar que meu cãozinho não está com nada? – vociferou a jovem tomada de ira.
- Fui eu mesmo – falou calmamente o veterinário. – Passo aqui todos os dias e vejo os cães. Examino se têm carrapato, ou pulga, ou alguma doença aparente, que é para avisar aos donos. Vi que o seu cão está ótimo, que não está com nada, aparentemente, que seja indício de alguma doença.    

- Ah, então é isso! – suspirou a dona, aliviada. - Ainda bem! Esse outro incompetente aí não me explicou direito – disse, por fim, retirando-se sem jeito, levando embaixo do braço o cãozinho travesso que a lambia euforicamente, alheio à confusão de que era motivo.    



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Declaro, sob as penas da lei, que sou auditor (do TCU), escritor (mediano), poeta (medíocre), católico e ecologista (em ambos, não praticante), compositor musical (licenciado) e artista plástico (bisonho). Nos últimos 35 anos, extremamente preocupado com os meus deveres e completamente desatento com os meus direitos.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A Visita Inesperada - Crônica de Marcos VALÉRIO

 

 

Crédito autoral: Ilustração extraído da página 

http://oanunciador.com/tag/nossa-senhora-das-dores/

 
A VISITA INESPERADA*
* texto de Marcos Valério Benelux
 

 

Acabo de chegar do trabalho e de me livrar da roupa suada, quando alguém se anuncia batendo à porta. Pergunto quem é.

- É Nossa Senhora das Dores – respondeu.

Penso não ter entendido direito e repito a pergunta.

- Nossa Senhora das Dores, já falei – resmunga.  

Pensei inicialmente tratar-se de uma brincadeira, mas a feminilidade da voz, e a firmeza com que me falou, convenceu-me do contrário. Apenas a impaciência não combinava com a índole de uma santa.

Por instantes lembrei-me dos sonhos que tive quando criança em que era visitado por uma das Nossas Senhoras. Não sabia exatamente qual delas, mas isso não fazia diferença. A cada visita, ela trajava um novo vestido longo, de cor diferente, mas sempre de seda cintilante. Lembro-me, principalmente, dos vestidos de cores mais fortes: o vermelho, o verde e o azul.                                                                        

Vieram à memória as muitas promessas feitas por minha mãe quando adoecíamos ou íamos participar de algum evento importante.

Podia ser que eu ou ela tivéssemos nos esquecido de pagar alguma das tais promessas, seja interrompendo a sequência das missas combinadas, reduzindo o número de esmolas a distribuir ou cancelando a visita a algum monumento religioso. Isso talvez fosse a razão da visita da santa, para me cobrar a dívida assumida e não cumprida.

- Só um pouquinho, Nossa Senhora, vou vestir uma roupa mais adequada para recebê-la e já volto.

- Tudo bem - respondeu-me ela, agora mais terna.

Enquanto procurava uma camiseta e trocava o calção por uma bermuda, povoava minha imaginação o distante Portugal de Dom Sebastião e a ainda mais distante Terra de Ur, onde Abraão fizera seu pacto com o Deus supremo.

Mas o que quereria Nossa Senhora com um pobre mortal, desconhecido, que não liderava sequer sua turma de inglês, muito menos um povo. É verdade que minha avó paterna me disse certa vez ter feito um pacto com Nossa Senhora para proteção de todos os seus descendentes. Quiçá, poderia ter sido com Nossa Senhora das Dores. Quem sabe, a razão de sua vinda seria a renovação do pacto original ou a discussão de uma nova cláusula a ser inserida no acordo.

Tomado de indagações e com nova vestimenta, decidi abrir a porta. A primeira imagem que surgiu me frustrou um pouco. Era uma senhora baixinha e magra, de roupas simples e de semblante sereno. Não se assemelhava em nada com a imagem que eu fazia nem com a figura de meus sonhos infantis.

- Do que se trata? – perguntei.

– Começou pelo apartamento 101, já passou pelo 102, 201 e 202. Na sequência, agora é a vez do senhor – falou uma mensagem enigmática.

Nesse ínterim, numa fração de segundos que se congelou no ar, percebi que ela trazia nas mãos a estatueta de uma santa. Explicou-me que trabalhava há pouco tempo no apartamento ao lado e que a patroa lhe pedira para me trazer a imagem.

- O senhor não viu o aviso do condomínio? – apontou-me a porta do elevador.

Olhei rapidamente o comunicado, com data de uns três dias atrás.

- Eu quase não pego elevador – justifiquei-me. - Sempre vou de escada, pela porta dos fundos.

Dito isto, li a mensagem. Nela, a síndica anunciava que, por iniciativa de alguns moradores, no condomínio predominantemente católico, seria feita a novena de Nossa Senhora das Dores. Cada noite, durante os próximos trinta dias, a imagem da santa seria deixada em um novo apartamento, a não ser que o morador se manifestasse em contrário.

- Afinal é uma novena ou uma trintena? – brinquei.

- Isso não vem ao caso. Hoje é sua vez de acolher Nossa Senhora das Dores – disse-me a emissária em tom desafiador. – E então, vai pegar ou largar?

- Vou pegar – respondi-lhe com o mesmo ímpeto, recebendo com cuidado a imagem da santa, uma obra de arte capaz de despertar bons sentimentos.

- Às oito da noite, estaremos todos aqui. Faça apenas café para umas vinte pessoas, que o bolo e os biscoitos nós traremos.

- Combinado – concordei tomado por uma energia diferente.

E assim, às oito horas, recebi muitos condôminos e seus auxiliares, em total compartilhamento, sem quaisquer distinções. Conhecemo-nos melhor, estreitamos os laços de convivência e descobrimos interesses comuns. Embora parecesse mera simbologia, senti que verdadeiramente a santidade celestial habitou meu lar naquela noite e me criou diariamente, durante todo aquele mês, um agradável compromisso noturno nos apartamentos dos próximos vizinhos.





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Declaro, sob as penas da lei, que sou auditor (do TCU), escritor (mediano), poeta (medíocre), católico e ecologista (em ambos, não praticante), compositor musical (licenciado) e artista plástico (bisonho). Nos últimos 35 anos, extremamente preocupado com os meus deveres e completamente desatento com os meus direitos.
 
 


terça-feira, 8 de setembro de 2015

A Revelação Bombástica do prof. Batistinha - Crônica de Marcos VALÉRIO



Ilustração de Roberto Mangosi - extraído de
https://www.youtube.com/watch?v=l_tmuToijmo

A REVELAÇÃO BOMBÁSTICA DO PROF. BATISTINHA

Laboratório de física aplicada é lugar de gente séria, palavras contidas e raciocínio cartesiano. O velho professor, como de costume, trabalhou toda a sexta-feira, no entanto, os colegas de laboratório sentiram que sua aura irradiava um brilho diferente. Foram se achegando, e ele, percebendo que os outros liam seus pensamentos e esperavam sua confissão, capitulou:
- Hoje eu comerei uma musa paradisíaca, coisa que não faço há exatamente um mês. Estou contando as horas. 
Isso despertou todas as conjecturas possíveis no ambiente de pesquisa. A primeira reação foi de descrença. Afinal ele já beirava os setenta anos de idade, trabalhava ainda por sacerdócio, ou para ocupar-se em sua viuvez. Era obstinado em seu trabalho. Nunca se o ouvia falar de mulheres.   
– Com o Viagra, nada mais é impossível, porém, que é duro de crer, isso é – duvidava um.
– Só acredito vendo com meus olhos! ... Eu também! – fizeram coro.
– Talvez ele nem saiba mais como é que se faz tal coisa – completou um terceiro.
-  Há a hipótese viável é que ele use o nariz como instrumento – anuiu um quarto, com alusão maliciosa aos dotes nasais do professor.  
Pelo sim, pelo não, alguém propôs:
- Gente, isso é o acontecimento da década. Afinal, quem será essa musa? Pode até ser alguém aqui da redondeza.  A gente podia segui-lo para descobrir.
- Isso mesmo – apoiaram os presentes. 
- Deve ser alguém muito especial, para ele chamá-la de musa – observou o primeiro.
Os Mais estudiosos se lembraram logo de Salvador Dali e de Pablo Picasso, que transformaram suas amadas em musas. O oposto era menos comum: transformar a musa em amada. Mas nada poderia ser estranho para a mente privilegiada do grande físico, Professor Batistinha.
- Primeiro, a admiração; depois, a conjunção – filosofou o analista.
- Para ele chamar de paradisíaca, deve ser um mulherão de fechar comércio e quebrar indústria – veio o comentário de um segundo.
- Talvez no estilo de Eva, a musa paradisíaca de Adão, a mãe de toda a humanidade e também de todo o pecado, na visão dos puritanos, e de todo o desassossego, na visão dos românticos – concluiu um terceiro.  
O fato é que já tinham organizado, aos pés de orelha, a caravana e os equipamentos necessários, desde os carros; escada retrátil; câmera fotográfica; visor com infravermelho, para enxergarem mesmo no escuro, se preciso fosse; amplificador de som, enfim, toda a parafernália usada para experimentos no laboratório de física. Ao final da tarde, o chefe da equipe, até então em atividade externa, retornou, e o porta-voz do grupo cochichou-lhe ao ouvido:
- Professor Batistinha confessou para todos nós que hoje terá um encontro amoroso com uma garota sensacional.
- Não acredito! – murmurou o chefe. – Ou melhor, tenho de acreditar, pois ele nunca foi de mentir. O estranho é que ele é um homem moralista e, ainda por cima, extremamente centrado no trabalho. Não pensei que tivesse cabeça para outra coisa. E pelo que sei, a saúde também já não está das melhores. Mas, enfim, se ele se julga capaz de dar conta da missão, vamos torcer pelo seu sucesso.
- E pelo que deu a entender, ele faz isso todos os meses – advertiu o interlocutor. – E deve ter bom desempenho, pois disse que estava contando os minutos.
Falaram sobre a caravana que estava organizada, e o chefe também não resistiu à tentação.
- Tô dentro! – garantiu.
Durante os últimos instantes do expediente, já noite, perceberam que o velho professor Batistinha esfregava as mãos, num misto de desejo e ansiedade, diante do relógio que cismava em não andar.
Finalmente, o decano despediu-se e todos repetiram sua frase: - “Até segunda! ”.
Seguiram-no até sua casa, como tinham planejado, posicionando-se numa fresta de janela lateral, protegidos pelo escuro da rua. Viram-no tirar as vestimentas, deixando à mostra uma ceroula de bolinhas. Depois, dobrar e guardar minuciosamente as peças de roupa, entrar para o banheiro e retornar envolto numa toalha, com ligeiro odor de alfazema, que perfumou o ambiente. Foi ao quarto e voltou de pijama, trazendo dois travesseiros que arrumou sobre o sofá. Em seguida colocou Mendelsohn para tocar uma suave música clássica.
- Não tem ninguém aí – cochichou o especialista em ótica. – Nosso velho companheiro só pode estar delirando.
- Não, ele nos pareceu bem lúcido e convicto – resmungou o outro. - E se falou é porque a moça vai aparecer. Vamos esperar mais um pouco que ela chega.
Nesse momento, o velho colocou todas as traves nas portas de entrada, sinalizando que não receberia mais ninguém. Dirigiu-se à cozinha e voltou com uma enorme banana na mão. Deitou-se confortavelmente no sofá. Nesse instante, todos prenderam a respiração, imaginando um desfecho andrógino. Mas o professor foi descascando a fruta e comendo-a em compassadas mordidas, com clara expressão de prazer.
- Pronto! Eis o que ele se planejou o dia todo para comer: uma banana – ironizou o mais impaciente.
- Ele disse mesmo que teria um encontro amoroso? – insistiu o chefe da equipe.
- Praticamente isso, com outra frase. Disse que iria comer uma musa paradisíaca.
- Ora, bolas! – impacientou-se o chefe. – “Musa paradisíaca” é o nome científico da banana da terra. Vocês não entendem nada de biologia!   
 - Então é isso! - custou a aceitar o outro.
- Mas por que danado ele criou toda essa expectativa para comer uma simples banana? – quis saber o mais curioso.
- Nosso velho amigo sofre de diabetes – esclareceu seu chefe - e está proibido pelo médico de comer as frutas de que mais gosta. A banana é uma delas. Deve ser por isso, coitado, que ele estava contando os minutos para chegar a casa e fazer sua extravagância mensal.


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Declaro, sob as penas da lei, que sou auditor (do TCU), escritor (mediano), poeta (medíocre), católico e ecologista (em ambos, não praticante), compositor musical (licenciado) e artista plástico (bisonho). Nos últimos 35 anos, extremamente preocupado com os meus deveres e completamente desatento com os meus direitos.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Os Disparates da Vida Social - Crônica de Marcos VALÉRIO


Foto extraída da página http://www.papodebar.com/a-atitude-masculina-ficou-digital/ (com efeito apenas ilustrativo, sem vínculo com a crônica)
Angélica fazia parte de um badalado grupo virtual que congregava muitas amigas queridas. Não poupavam elogios umas às outras e não faltava assunto. Ao amanhecer, já postavam as primeiras mensagens: “Bom dia, queridas e lindas amigas, desejo-lhes de alma um alegre despertar”, “Um beijão no coração”, dizia outra. “Muita saúde e paz” repetiam as retardatárias. Por volta das oito, as mensagens se desejavam mutuamente “Bom dia de trabalho”, “Muitas realizações”, “Muitos negócios positivos”, “Que seu chefe esteja de bom humor”.
Às dez horas, não esqueciam de desejar-se um bom lanche, alimentos saudáveis, etc. Depois vinham os votos de bom almoço, bom lanche da tarde, bom fim de jornada, bom retorno ao lar, excelente jantar, e por fim, “Bom sono”, “Bons sonhos”. Isso sem falar nos parabéns em dias de aniversário das integrantes e dos seus familiares.
Angélica era das mais festejadas, pelas suas iniciativas, pela sua prodigiosa lembrança e capacidade de externar amor e admiração a todo instante. Fazia cada participante sentir-se a pessoa mais linda e admirada do mundo.
Eis que, em certo dia nublado, depois de uma chuva de mensagens de várias amigas, já passava das oito da manhã quando Angélica resolveu se manifestar de modo surpreendente e fazer todas as telas do grupo dispararem um “vibra call” automático:
Angélica diz: - Aqui todo mundo é babaca. Só tem gente otária, ridícula e mal amada!

A mensagem provocou uma imediata reação em cadeia.
Amanda diz: Babaca é você, sua imbecil. Tá se achando!
Júlia diz: Um saco de merda é o que você é.
Clarice diz: Otária é a mãe que botou no mundo esse trambolho.
Flávia diz: Ridícula é quem usa cintas dos pés a cabeça para esconder as gorduras.
Roberta diz: Só gordura? Não seja generosa. Esqueceu as estrias e celulites?
Márcia diz: Mal amada, é? Quem levou chifre do Rubinho?
Roseli diz: Só Rubinho não. Ninguém agüenta mais de um mês com essa megera.
Isa diz: Cresça e apareça. Tudo em você é falso. 
Lúcia diz: Se não pintasse os cabelos toda semana, eles estariam branquinhos.
Mariana diz: A única coisa verdadeira em você é o mau hálito.
Taíza diz: Ninguém te agüenta, guria.  Vai te catar.

Depois de uma enxurrada de outras mensagens do gênero, durante toda a manhã, surge a réplica já no horário do almoço:

Angélica diz: Gente, pelo amor de Deus, eu esqueci meu celular em casa. Só agora estou voltando do trabalho. Uma sobrinha adolescente que está nos visitando deve ter entrado na minha rede. Só pode ter sido essa pestinha que escreveu aquele absurdo em meu nome. 

Amanda diz: Realmente eu achei estranho. Você não é disso. É uma pessoa super do bem. 
Júlia diz: Liga não, amiga. Nós te amamos.
Clarice diz: Bola prá frente. Você é maravilhosa e vai superar tudo.
Flávia diz: Não vale a pena se grilar com isso. Nós te adoramos.
Roberta diz: Toma cuidado com essa menina. Ela pode aprontar coisa pior com você. Beijos.
Márcia diz: Vamos passar uma esponja em tudo. Tem um amigo meu que quer te conhecer.
Roseli diz: Imagino a raiva que você ficou dessa garota.
Isa diz: É coisa de adolescente. Não se preocupe. 
Lúcia diz: E no mais, está tudo bem com você? No trabalho, no amor?
Mariana diz: Conte sempre com esse ombro amigo. Nossa amizade é para sempre.

Taíza diz: Vamos marcar logo nosso chope dessa semana? 



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Declaro, sob as penas da lei, que sou auditor (do TCU), escritor (mediano), poeta (medíocre), católico e ecologista (em ambos, não praticante), compositor musical (licenciado) e artista plástico (bisonho). Nos últimos 35 anos, extremamente preocupado com os meus deveres e completamente desatento com os meus direitos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O outro mundo e o extrassensorial - crônica de Marcos VALÉRIO


O OUTRO MUNDO E O EXTRASSENSORIAL


Crédito autoral: ilustração obtida no site http://www.sitepx.com/blog/recursos?cat=recursos

Edson abriu os olhos, como que tornando de um breve sono ou passamento e se viu voando. Voando sim, que nem um pássaro. Não havia foguete, avião, ultraleve, asa delta, pára-quedas, para-pente ou qualquer outra modernidade conduzindo-o ao espaço infindo. Não estava também a bordo de nenhum balão, dirigível ou outro artefato dos vistos nos livros de história.
Não portava mesmo as rudimentares asas com que o lendário Ícaro tentara na lenda chegar ao sol. Seus braços estavam livres, seu corpo inteiro estava livre e voando no ar, em suave mas constante velocidade, sendo levado por uma energia motriz ascendente, desconhecida dele e dos livros científicos que lera durante a vida. Percebeu apenas que trajava uma roupa azul dos pés à cabeça.
Só podia estar sonhando. Apesar da incrível consciência que tinha dos arredores e de si mesmo, só podia ser isso. Tentou a velha técnica de beliscar o braço. Se doesse estava acordado; se não, estava mesmo sonhando. O incrível é que o beliscão não doeu nem deixou de doeu. Simplesmente, não conseguiu beliscar-se, pois a mão traspassou o braço como se ambos fossem feitos de uma substância gasosa. Procurou manter a calma, em meio a interrogações que o assaltavam.
Mais alguns poucos minutos e se viu chegando às nuvens mais altas. Lá havia várias pessoas com os mesmos trajes, cada qual entretida com uma espécie de painel eletrônico que liam à sua frente. Enxergou um espaço entre duas pessoas e logo reconheceu o seu painel. A primeira coisa que apareceu foi a cópia do email que mandara poucas horas antes para sua namorada, dizendo: “Patty, perdi o avião. Os voos estão todos lotados para os próximos dias. Não quero ficar esse feriado longe de você. Vou de carro. Te amo”. E logo uma resposta: “Adorei, amor, mas venha com cuidado, pois essa estrada é muito perigosa”. E a réplica: “Não se preocupe. Não passarei dos 120 km/h. rsrsrs”.
Nesse instante, resolveu olhar de lado e viu que o vizinho tinha em sua tela a notícia de um grave acidente automobilístico ocorrido naquela tarde, próximo à cidade onde morava sua namorada. Quase teve um enfarte quando reconheceu, na foto do veículo acidentado, a placa do seu carro. É claro que enfarte naquela hora faria pouca diferença, pois concluiu que já estava morto.
Agora recordava tudo com clareza. Numa das curvas fechadas, por excesso de confiança e ousadia, sobrara e caíra no abismo. Milhares de lembranças vieram à sua mente. Como se sentiriam agora seus pais, seus irmãos, sua namorada, os colegas do trabalho e da igreja, a turma da pelada semanal?  Estariam muito abatidos, desconsolados?
Como saber?  Pensou voar de volta a terra e dar uma olhadela no próprio enterro. Não conseguiu. Uma força estranha parecia agora detê-lo na nuvem, permitindo-lhe dar poucos passos em cada direção.
Talvez aparecesse alguém da hierarquia celestial que pudesse lhe dar essa permissão. Teve a certeza de que apareceria alguém, como se estivesse agora possuído da capacidade de prever o futuro. Era só esperar e cumprir uma sequência que lhe estava determinada.    
Enquanto aguardava, voltou a mirar sua tela, resignadamente. Leu centenas dos emails que trocara nos últimos tempos com todo mundo. Depois acessou uma pasta de Windows Media Play. Estaria ali o tal filme da vida, que dizem ser exibido a todos que passam dessa dimensão para a outra? Talvez, mas na verdade assistiu apenas a filmes de curta duração, com os amigos no churrasco, das habituais viagens de férias ou simplesmente de algum espetáculo que assistira em vida.
Por curiosidade, acessou um álbum de fotografias, onde se viu ao lado de muitos entes queridos, em momentos especiais. Mexeu depois na pasta do PowerPoint e reviu outras tantas mensagens recebidas e enviadas. Por fim, vasculhou no bloco do Word vários arquivos de poemas e textos por ele produzidos. Antes de entrar em outros aplicativos desconhecidos, notou a presença de um anjo ao lado e lhe perguntou:
- Amigo, será que eu poderia dar um pulinho na terra para ver como estão meus familiares, meus amigos, minha namorada?
- Permissão negada – disse firme. – É um ambiente de muita dor. Não lhe faria bem.
- O que eu vou fazer aqui?
- O mesmo que já está fazendo: abrindo emails, ouvindo músicas, lendo mensagens e textos, revendo filmes e fotografias dos entes queridos, acompanhando notícias da terra pelos jornais e revistas dos quais tenha assinatura, rindo com piadas ou concluindo algum projeto inacabado. Se cansar, podemos transferi-lo para outro local de repouso eterno, onde se dorme o tempo que se quiser.
- Não, não quero dormir – assegurou Edson. - Só me tire uma dúvida: como vocês conseguiram todo esse acervo de informações?
- Não conseguimos nada – confessou o anjo. – Vocês na terra é que começaram com essa mania de salvar seus arquivos nas nuvens. Eles estão todos aqui à sua disposição – garantiu o amigo celestial, flutuando para o outro lado.    
- Todos mesmos? – indagou Edson, preocupado, lembrando de alguns filminhos pornôs que diversos amigos lhe mandaram e que ele, inadvertidamente, também armazenara nas nuvens.
- Não todos – garantiu o anjo, conhecendo o que ele indagava. – Esses vídeos que você pensou estão bloqueados em nossos computadores. Só estão liberados naquela nuvem negra ali do lado – disse-lhe, apontando-lhe com a extremidade do nariz.
Edson olhou de soslaio e percebeu a tal nuvem, de onde podia ouvir e ver sons e imagens de uma euforia bizarra. 
- Quando a maioria dos arquivos salvos tem essa natureza, mandamos o dono para aquele lado. Você escapou por pouco – explicou o ser alado, após breve pausa. – Pelos cálculos do nosso departamento estatístico, um pouco mais da metade de seus arquivos salvos nas nuvens eram aproveitáveis. O restante era lixo impróprio para esse ambiente.
- Ufa! – suspirou mentalmente, sentindo-se aliviado.
- Sua interjeição de alívio faz todo sentido – concluiu o anjo, lendo-lhe os pensamentos.  



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quinta-feira, 30 de julho de 2015

Sebites e caga-sebites - Crônica de Marcos VALÉRIO


Caga-sebites
Hermógenes era criador de caga-sebites, um passarinho pelo qual ninguém jamais deu um vintém furado. Outros, sequer ouviram falar dessa ave. Alguns talvez conheçam o sebite, um cerebídeo de nome científico Coereba Flaveola Chloropyla, de porte pequeno, costas acinzentadas, peito amarelado e alguns traços brancos espalhados pela cabeça, papo e extremidade das asas. Uma espécie de bem-te-vi em miniatura. O detalhe é que só sabe piar. Mas não é aquele piado vistoso, sonoro e repetido dos pintos de raça. É antes um piado isolado, sem força, com timbre de palha seca.  

Pois bem, o caga-sebite, um tiranídeo de nome científico Phyllomyias Fasciatus, tem o dorso esverdeado e o peito amarelado, distribuídos de forma mais homogênea que seu primo menos desconhecido. Em suma, é uma versão genérica do sebite, ainda mais sem graça, menor em tamanho, com a desvantagem de não saber sequer piar. A única coisa que sabe fazer é cagar, e o faz em profusão. A cada duas bicadas em qualquer alimento, libera uma remessa pastosa pela cloaca, numa incrível rapidez digestiva. Daí porque alguém, juntando sua semelhança física – um sebite anão – com sua única proeza, deu-lhe o nome adequado: caga-sebite.
Sebite


Há que se perguntar: o que quereria Hermógenes ao criar caga-sebites? Ora, ele era orquidófilo, daqueles que têm esse hábito como religião e leem tudo a respeito das espécies. Em suas pesquisas, descobrira que as orquídeas, ou pelo menos o tipo que cultivava, adoravam adubo fresco. E nenhuma fonte dessa matéria-prima era mais inesgotável que os caga-sebites. 




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Declaro, sob as penas da lei, que sou auditor (do TCU), escritor (mediano), poeta (medíocre), católico e ecologista (em ambos, não praticante), compositor musical (licenciado) e artista plástico (bisonho). Nos últimos 35 anos, extremamente preocupado com os meus deveres e completamente desatento com os meus direitos.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Piadas do Controle - Crônicas de Marcos VALÉRIO

1 - NOVAS METODOLOGIAS  

Os auditores estavam fechando o primeiro dia de trabalho e o coordenador começou a fazer um batimento entre os procedimentos previstos e os realizados até o final daquele dia. À medida que ia lendo a matriz de procedimentos, ia riscando com sua lapiseira cada tópico já executado. Após riscar os três primeiros tópicos, o membro da equipe estranhou:

- Por que você está riscando os papeis de trabalho?

Responde o coordenador:

- Você não viu que nossos chefes estão estimulando agora a auditoria de riscos?

2 - AS BRECHAS DA NORMA ESCRITA E OS RISCOS DA INTERPRETAÇÃO LITERAL

´Todos estavam incomodados com a frequente situação dos vasos sanitários urinados, no banheiro masculino da Secex. Chegaram a fazer cartazes com a solicitação: “Em consideração ao próximo colega que usará o vaso sanitário, solicitamos encarecidamente que levante a tampa do vaso antes da micção”. O disparate continuou. Deduziram que o colega não conhecia o significado da palavra “Micção”. Mudaram a frase final para: “... levante a tampa do vaso antes de urinar”. A desfeita continuou e alguém sugeriu nova mudança na frase final para torná-la mais explícita: “... levante a tampa do vaso antes de mijar”.

Mais uma vez, a súplica não surtiu resultado. Sabendo que não havia analfabetos entre os servidores e terceirizados mais humildes, resolveram pedir para um dos serventes ficar de plantão e verificar o banheiro cada vez que saísse alguém de lá. Já no primeiro dia de vigília, foi identificado o colega infrator e alguém foi escalado para falar com ele.

Como muito jeito, o interlocutor explicou os benefícios que a campanha traria para todos e perguntou-lhe o que achava. Ele respondeu que concordava plenamente e que estava fazendo sua parte. O interlocutor o levou então ao local da sujeira e mostrou-lhe as manchas amareladas que, segundo observação de alguém, teriam sido verificadas logo após sua saída do recinto. Ele categoricamente esclareceu:

- Eu levanto religiosamente a tampa do vaso, toda vez que vou verter o líquido, do jeito que o cartaz pede. Eu só não levanto o assento do vaso. 


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terça-feira, 9 de junho de 2015

Memórias de um Limpador de Praias (II) - Crônica de Marcos VALÉRIO

Isso ocorreu no ano de 2008 da graça de Nosso Senhor e me marcou pela nítida ignorância dos personagens. Após decidirmos, em família, curtir férias em todo o litoral cearense, incluímos no roteiro a Praia das Fontes, em Beberibe. E foi nela que se deu o estranho episódio. A praia é paradisíaca, com belas falésias. Em um dos recantos, jorra do paredão de argila um jato considerável de água mineral. Ao lado, há uma grande barraca, que se beneficia do tesouro natural, atraindo clientes.  
Garantimos uma mesa naquele recinto e demos os poucos passos que nos separavam da bica. Aí veio a surpresa: o local era uma lixeira de grandes proporções, com imundície profunda em três metros de raio. Com jeito, expliquei ao barraqueiro – um senhor humilde - que seu sucesso dependeria, em muito, de um ambiente limpo; e que nós queríamos ajudar na limpeza daquele trecho.
Ele demonstrou boa vontade e nos deu uns dez sacos de lixo dos grandes. Mas fez questão de frisar que aquela sujeira já era daquela manhã, pois “limpava todas as tardes o ambiente”. Arrisco-me a dizer que ali estava o acúmulo obstinado de vários meses de militância poluidora. Além dos lixos comuns (garrafas pet, fraldas, copos, sacos, roupas, tênis, etc), desenterramos com dificuldade um pneu e um guarda-sol, o que pôs por terra a tese de que a sujeira era daquela manhã.
Trabalhamos mais de uma hora, eu, esposa e filhos. As pessoas nos olhavam com cara de espanto. A cada lixo que recolhiam, meus pequenos, então com 7 e 10 anos de idade, repetiam: “Papai, veja a imundície que jogaram aqui”. O outro mostrava algo e dizia: “Quem joga uma coisa dessas na praia não é gente; é um porco”. Eu vibrava com o que ouvia, pois sabia que o discurso deles era educativo e se dirigia aos que nos observavam, sentados em suas mesas, a cinco metros de distância. Após limparmos cem por cento da área, entregamos ao barraqueiro os sacos cheios e tivemos deste a garantia de que, mais tarde, “como fazia todos os dias”, levaria a sujeira para o alto da falésia, onde seria coletada pelos caminhões da limpeza.
Em seguida, tomamos banho e sentamos.  Minhas crianças, com instinto precoce de cidadania, resolveram recolher os inúmeros copos plásticos que estavam no chão da barraca, embaixo das mesas e cadeiras. Trouxeram-me duas pilhas com uns cinquenta copos cada. Levei-as até o balcão e pedi ao barraqueiro que as incluísse nos sacos de lixo. Ele me pediu que deixasse em cima do balcão, pois guardaria em seguida.
Fiquei observando da mesa, receoso de que desse outro destino à “mercadoria”. Nesse momento ocorreu o inesperado: o filho do barraqueiro, um rapazote de uns 14 anos, visivelmente incomodado com nossa limpeza, apanhou as duas pilhas de copos, correu até a frente da barraca e arremessou tudo para o alto, provocando uma espécie de revoada de aves de agouro, que poluiu toda a frente da praia, ante as palmas de alguns bêbados, empolgados com a cena exótica. Perguntei ao dono: “O senhor viu o que seu filho fez com os copos que nós recolhemos?”, e ele, com sorriso amarelo, justificou: “Isso é doidice de criança!”.
Confesso que não tive mais vontade de voltar àquele bonito lugar, exceto pela curiosidade de ver como está, alguns anos depois, aquela bica “limpa diariamente pelo barraqueiro”, com ajuda do seu filho, agora adulto. Por falar em filho, o meu, com a tarimba dos seus 10 anos de então, opinou à época: “Papai, talvez os clientes gostem daquela sujeira. A gente pode ter prejudicado os negócios do homem com nossa limpeza”.  

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Declaro, sob as penas da lei, que sou auditor (do TCU), escritor (mediano), poeta (medíocre), católico e ecologista (em ambos, não praticante), compositor musical (licenciado) e artista plástico (bisonho). Nos últimos 35 anos, extremamente preocupado com os meus deveres e completamente desatento com os meus direitos.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Memórias de um Limpador de Praias (I) - Crônica de Marcos VALÉRIO


Há cinco atrás, veraneei pela primeira vez com a família em Tabatinga, de onde veio o aprendizado que ora compartilho. Imagino que as mesmas cenas se repitam nos outros nove mil quilômetros restantes da costa brasileira. A Barra de Tabatinga, como outros presentes que a natureza deu ao Rio Grande do Norte, é um pedaço de mar, com piscinas naturais, mornas e cristalinas, e paisagem fascinante. No primeiro contato, choquei-me, ao ver tanto lixo espalhado pela areia, ante o olhar complacente de todos.
Surgiu então a ideia de fazer um mutirão de limpeza. E parti com meus filhos para arregimentar frequentadores. Os motivos dados para não participar do mutirão foram muitos. Uns justificaram que usavam pouco a praia; que estavam apenas veraneando. Outros alegaram problema de coluna, apesar de toda a elasticidade demonstrada ao caminhar. Alguns falaram que não eram garis; que aquilo era dever da Prefeitura; que não iriam limpar a sujeira dos outros.
Algumas pessoas de bem, como o astrofísico Renan Medeiros, o poeta Marcelo Castro, alguns rotarianos, e suas famílias, aderiram ao movimento. Ação planejada, começamos a limpeza, com cerca de vinte voluntários. Uma senhora de quase oitenta anos me emocionou ao juntar-se ao grupo.
Durante a tarefa, havia os que apressavam o passo, fingiam não ouvir os chamados, e os que, de varandas confortáveis, degustavam geladas cervejas com os amigos e nos olhavam, ora com a aquela cara de “quem não tem nada com isso”, ora com expressão de deboche. Nessas horas de estupidez explícita, lembrava-me da frase de Jesus: “Perdoa-os, pois eles não sabem o que fazem”.   
Os lixos encontrados foram os mais variados: de embalagens de picolé a sacos de farofa; de garrafas pet, a frascos de protetor, latas e garrafas. Recolhemos ainda apetrechos de pesca e canudos. Entre os lixos exóticos, preservativos, braço de boneca inflável, fraldas descartáveis, absorventes femininos, tampinhas e uma infinidade de outras “milacrias” descartadas pela ausência de consciência e, principalmente, de inteligência! Dentre os lixos menos ofensivos, estavam os palitos de picolé e os cascos de coco verde.      
Aquele nosso primeiro mutirão na Praia de Tabatinga recolheu 90 sacos de 100 litros, cheios de lixo jogado na areia por mamulengos humanos, levando à morte o planeta onde vivem, e retransmitindo o mesmo comportamento aos seus filhos, sobrinhos e netos.
No dia seguinte, fomos caminhar na praia e vimos que o ciclo se reiniciava, com a mesma estupidez de antes, havendo à beira-mar, na mesma área da coleta anterior, lixo suficiente para encher pelo menos mais um saco dos que nós usamos na véspera. Nos anos subsequentes, tenho voltado ao mesmo lugar. E constato que a situação persiste. Temos repetido a operação, lá e em outras praias. Mas vemos que os marginais ambientais – não há outro adjetivo que os defina – têm deixado suas marcas em todos os cantos, de maneira incansável, colocando à prova a persistência do bem, na constante luta contra o mal. 

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Declaro, sob as penas da lei, que sou auditor (do TCU), escritor (mediano), poeta (medíocre), católico e ecologista (em ambos, não praticante), compositor musical (licenciado) e artista plástico (bisonho). Nos últimos 35 anos, extremamente preocupado com os meus deveres e completamente desatento com os meus direitos.





                                                                                               

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