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terça-feira, 8 de julho de 2014

Swing Tântrico - peça de Marcelo ASSIS (5/10)

Patrick – Não, eu só danço em boates gays! Eu vim como um amigo, querendo te dá um conselho. Seu relacionamento é uma mentira, porque ele não gosta de você!
Sissi – Sei..., e é você que ele gosta? Se você tá tão certo disso, por que veio até aqui?
Patrick – Já disse, como amigo, querendo...
Sissi – Escuta moço, ele está comigo porque quer, eu não obrigo ninguém  ficar do meu lado!
Patrick – Mas ele só está com você porque não se aceita totalmente!
Sissi – Então, o problema não é meu, é dele, por isso, você deveria falar com ele e não comigo! Eu nem sabia que você existia, tava sabendo do tal do Esteban, mas você é novidade!
Patrick – Esteban? Quem é Esteban?
Sissi – Você não sabe quem é Esteban?! Então, Não é só comigo que ele tem segredos! Quer saber quem é Esteban? Pergunta para ele e pergunta também do sexo Tântrico que eles fazem entre si! Não é de você que ele gosta?! Então, ele vai lhe contar! Agora, por favor, eu estou no meu local de trabalho, por isso, se não tem mais nada pra me dizer cai fora!
Patrick se afastando de costas para Sissi.
Patrick – Piranha!
Patrick encontra Ricardo.
Patrick – Me diga, quem é Esteban?!
Ricardo – Essa é uma excelente pergunta! Quem é Esteban!
Patrick – Deixa de ser cínico, eu soube por uma fonte muito segura que você conhece esse tal de Esteban e anda praticando sexo tântrico com ele!
Ricardo – Quem é essa fonte?! A qual dessas bichas invejosas, que adoram destruir o relacionamento dos outros você foi dá ouvidos? Escuta, Patrick: se você ficar me infernizando toda vez que seus “amiguinhos” vierem fofocar no seu ouvido, a gente vai acabar se separando, porque eu não tenho saco para isso não!
Patrick – Você está pensando em me largar?
Ricardo – Quem sabe! De repente, eu posso levar a sério esse meu lance com a Sissi! Com ela, eu posso sair nas capas das revistas!
Ricardo sai.
Patrick – Eu sabia que você tinha vergonha de mim seu mentiroso!
Lúcia – Eu não acredito! O André já está traindo o Esteban com outro?
Sissi – Ou traindo o outro com o Esteban! Só sei que ele veio me procurar para tirar satisfações!
Lúcia – Mas aonde já se viu tchê! Amantes tirando satisfações com as esposas! A sagrada célula familiar não vale mais nada! Foi assim que o Império Romano caiu! Basta vê as novelas! Quando a TV começou no Brasil, as mocinhas eram umas bobinhas que nem sabiam o que era sexo, hoje são umas pilantras que querem roubar os maridos das outras e as vilãs são as esposas que querem manter a família! Ser esposa só serve para gente usar uma aliança no dedo!
Sissi – No meu caso nem isso!  Por que você nunca falou da minha aliança?
Lúcia – Que aliança?
Sissi – Essa aliança?
Lúcia – Coração, isso é um anel de formatura! Parece até com o anel do Paulo que uma ex-empregada roubou!
Sissi – Tem certeza que foi a empregada?
Lúcia- Certeza, eu não tenho porque eu não vi, mas é claro que foi ela, por quê?
Sissi – Porque foi o seu filho que me deu esse anel como aliança de casamento!
Lúcia – Tu está me dizendo que foi o André que roubou o anel do pai?!
Sissi – Com certeza! Já era mentiroso e falso desde a época!
Lúcia – Sem falar em ladrão! Coitada da Gorete, só não chamei a polícia porque ela chorou tanto! Preconceito às vezes ajuda, mas às vezes atrapalha!
Sissi – Como você nunca reparou na minha aliança?
Lúcia – Sissi, te juro pelo nosso amado RIO GRANDE, que olhava para este anel e via uma aliança de casamento! Acho que pelo fato de ser mãe e não querer acreditar que o meu filho tivesse roubado o anel do pai! Era só ter me pedido! Que eu tinha dito não! Bem que me disseram que não são os olhos e sim o cérebro que enxerga realmente!
Sissi – Como você pode me dar o anel do seu pai que você roubou como aliança de casamento?!
André – Anel que eu roubei?! Essa é a sua nova piração?! Esse anel era meu! Foi o meu pai quem me deu!
Sissi – Sua mãe disse que você roubou!
André – A minha mãe só pensa em me ferrar, será que você nunca percebeu?
Sissi – Sei..., você é um bom moço, tão bom, que não ficou com pena quando a sua mãe despediu a pobre da empregada, por causa do anel!
André – Qual delas? Por que uma empregada durar um ano com a minha mãe é muito! Não me lembro dela ter demitido ninguém por causa desse anel!
Sissi – O Sr. se lembra ao menos que me deu ele como aliança de casamento?
André -  Sim, e daí?
Sissi – E daí, que isso não é uma aliança e eu comprei gato por lebre!
André – Eu não entendo nada de joias e pelo visto nem você, porque era você quem deveria ter me dito na época, que isso não servia como aliança! Esse anel era muito importante para o meu pai e eu sempre o achei muito bonito, por isso tudo, ele era muito especial para mim! Achei que daria uma linda aliança de casamento! Eu só queria dar uma coisa linda e que era muito importante para mim, para a mulher que eu amava!
Sissi – Mulher que eu amava! Então, eu sou mesmo passado!
André – Não é, eu ainda te amo...
Sissi – Chega de mentiras! Por que você não me disse: olha, esse é o anel do meu pai, que é muito importante para mim e quero que você use como aliança de casamento! por que você não fez isso Danilo?!
André – Talvez seja porque eu sou o André e não o Danilo.
Sissi – Eu disse Danilo?
André - Sim, quem é Danilo? Já que você é tão mais honesta do que eu, eu gostaria de saber! É o professor da academia?
Sissi – Tá certo! Até mesmo, porque eu não tenho mais motivos para esconder! É o professor da academia sim! Estou saindo com ele mesmo! Resolvi me dar uma nova chance de ser feliz!
André – Então, pelo visto, o passado sou eu!
Sissi tira o anel e o entrega a André.
Sissi – Só posso te dizer que, no momento, não me sinto à vontade de ficar com algo que era tão importante para o seu pai e que ele queria que ficasse com você.
André – Mãe, como você pôde dizer para Sissi que eu roubei o anel do papai?
Lúcia – Porque tu roubou guri! Tu queria que mentisse para te ajudar?
André – Eu não roubei o papai me deu!
Lúcia – Te deu?! Mas ele pediu para se enterrado com ele! Eu só não fiz isso porque fiquei com medo que profanassem o túmulo dele!
André – O pai tava delirando quando morreu!
Lúcia – Eu sei, pedir para ser enterrado com uma joia no Rio, só estando completamente fora do juízo perfeito!
André – Também não importa mais mesmo! A Sissi só estava querendo uma desculpa! Ela não me ama mais, mãe! Ela não me ama mais, mãe!
Lúcia – Mas o que tu queria? Tu aprontou muito com a coitada! Eu sou testemunha!
André – Aprontei o quê?
Lúcia – Põe a mão na consciência guri!
André – Por que não põe a mão na consciência a senhora e não me trata como se eu fosse seu filho? Não tá vendo que eu estou sofrendo?
Lúcia abraço carinhosamente André.
André – Pois não?
Patrick – Eu posso falar com você?
André – Sobre o quê?
Patrick – Sobre a sua mulher! Você sabe aonde ela está a essa hora? Dando em cima do meu homem!
André – Entra!
Patrick entra.
André – Quer dizer que a minha mulher está me traindo com o seu homem?! Eu ouvi direito?
Patrick – Ouviu e preciso da sua ajuda para separá-los!
André – Mas é pra já! Deixa só eu contar que o namoradinho dela é gay! Ela vai terminar com ele na hora!
Patrick – Quem me dera ser tão simples assim! Eu já falei com ela e ela parece saber de tudo e não se importar,ficou até agressiva comigo, como se o meu homem fosse dela! Ainda me falou que tem um tal de Esteban também!
André – Como é que é? O Esteban está pegando a Sissi? Eu mato esse filho da puta!
Patrick- Mata nada, porque tu é corno! Além disso, o Esteban está ficando com o meu companheiro, mas presumo pela sua reação que você deve conhecer esse esteban.
André – Eu conheço um Esteban...

Patrick – E esse seu Esteban curte esses lances tipo sexo tântrico?

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(continua na parte 6/10)

Marcelo Assis da Silva é Técnico de Finanças e Controle Externo e atua na Secretaria de Controle Externo de Aquisições Logísticas. Estudou roteiro na Escola de Cinema Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro e montou e dirigiu o espetáculo “Swing Tântrico” também no Rio de Janeiro. “O Primo Basílio” é uma adaptação teatral do romance de Eça de Queiroz.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Swing Tântrico - peça de Marcelo ASSIS (3/10)

Ricardo – Patrick, para de fazer cena! O que tá pegando?
Patrick – O que tá pegando é que é horrível ser tratado como uma boneca velha e feia que tem que ficar trancada dentro de uma caixa escura!
Ricardo - Então, esse é o motivo do drama? Boneca Trancada numa caixa?! Minha família sabe sobre nós, meus amigos sabem sobre nós, o que você quer? Sair nas capas das revistas comigo?
Patrick – Queria que você não tivesse vergonha de mim!
Ricardo – Mas eu não tenho vergonha de você, infeliz! Eu sou ator de TV, e por isso Não posso abrir escancaradamente a minha sexualidade! Se eu trabalhasse em qualquer profissão a gente saía de mãos dadas! Mas, eu não vou destruir minha carreira por causa disso!
Patrick – Sei..., ser gay e não poder contar para não destruir a carreira até dá para engolir, mas por que você pede para suas amigas fingirem que são suas namoradas? Ricardo, você tem prazer em se passar por alguém que você não é!
Ricardo – Prazer em me passar por alguém que eu não sou? Patrick, você Sá fala merda!
Sissi – Ai meu Deus! Não me diz que você é ele senão eu vou desmaiar!
Ricardo – Ele quem? Já sei, o Ricardo Salvatore! Eu não sei a razão, mas as pessoas vivem sempre me confundindo com esse cara!
Sissi – A razão é porque você é uma cópia exata dele só isso!
Ricardo – Ou ele uma cópia exata minha! Embora, eu, pessoalmente, não me ache parecido com ele! Posso te fazer uma pergunta? Você costuma malhar com essa roupa?
Sissi – Não, o meu estúdio de dança fica aqui, Ricardo!
Ricardo – Danilo! Eu me chamo Danilo e sou o novo professor da academia, se precisar, é só chamar!
Lúcia – Guria, você tem certeza do que tá me dizendo?
Sissi – É claro! Lúcia, o André virou gay!
Lúcia – Tu devia ter me ligado que eu voltava correndo para casa e acabava com a putaria dos dois!
Sissi – Eu não! Eu nunca fui de empatar foda de ninguém!
Lúcia – Mas é muita falta de vergonha na cara tchê! Transar com o outro no quarto de vocês!
Sissi – O pior é pagar para um velho nojento que eu não queria nem de graça!
Lúcia – Ainda é tarado o filho de uma égua! Porque isso só pode ser tara!
Sissi – Ele chama isso de sexo tântrico e queria que eu participasse!
Lúcia – Se o outro fosse ao menos bonitão ainda vai lá! No qyue o meu filho está se tornando, Sissi? Além de puto, é claro!
Sissi dá com os ombros.
Ricardo – Olá!
Sissi – Olá Ricardo!
Ricardo – Danilo!
Sissi – Eu sei, só estava brincando!
Ricardo – Entendi! Mas por falar em nomes, acho que você não me disse o seu!
Sissi – Sissi!
Ricardo – Diferente, né?
Sissi – É, a minha mãe me deu esse nome por causa de um filme! Eu não gostava, na verdade, detestava! Até que vi o filme e adorei! Principalmente, por causa da protagonista que era tão linda e feliz!
Ricardo – E entendeu que sua mãe ao te dá esse nome queria que você fosse tão linda e feliz quanto a protagonista!
Sissi –Exatamente!
Ricardo – O engraçado, que eu tinha um..., quer dizer, uma namorada que tinha um cachorrinho com esse nome!
Sissi – Não seria uma cadelinha?
Ricardo – Não, era um cachorrinho mesmo! As minhas pernas que ele vivia tentando, e às vezes conseguindo, sarrar são testemunhas! Bem, isso não importa, o importante é que o desejo da sua mãe se realizou, porque você é linda!
Sissi – Você acha? Obrigada! Mas sabe, a minha vida está longe de ser um conto de fadas.
Ricardo – Talvez seja, porque você ainda não encontrou o seu príncipe encantado, Sissi!
Sissi – Esse é o problema! Pensei que tinha encontrado, mas descobri que ele é gay!
Ricardo – Isso acontece! Mas se ele não é o cara certo, o certo pode está bem próximo...
Sissi – Danilo, Você está me cantando?
Ricardo – Graças a Deus que você percebeu! Pensei que não estava sendo convincente, quer dizer, que não estava sendo claro! E aí, o que você achou?
Sissi – Achei do quê?
André – Da minha Cantada Sissi! Achou viril, ou achou que tem alguma coisa errada, algo que você considera que precisa ser corrigido?
Sissi – Tenho uma sugestão a fazer sim! Você está falando igual quando nos oferecem um produto novo no mercado e querem saber da nossa opinião! Mulher gosta de segurança num homem!
Ricardo – Segurança, né! Legal! Eu quero você Sissi! – tomando-a em seus braços com entusiasmo – o que você achou?
Sissi – Você vai ficar me perguntando o tempo todo o que eu acho das suas cantadas? Que coisa mais brochante!
Ricardo – Desculpe! Eu vou melhorar! Sissi, eu te acho uma mulher linda, super interessante, sexy, charmosa e inteligente! Eu gostaria muito de te conhecer melhor, o que você acha?
Sissi – Da cantada?
Ricardo – De me conhecer melhor, Sissi! Mas se quiser comentar a cantada tudo bem! Tou de sacanagem! E aí, o que você acha da minha proposta?
Sissi – Eu não sei Danilo...
Ricardo – Não faz isso comigo Sissi! Você vai me arrasar!
Sissi – significa tanto para você?
Ricardo – Mas do que você pensa!
Sissi – O problema não é você, Danilo..., você é inclusive a cara do meu ator predileto, mas é que eu..., sabe de uma coisa..., por que não? Danilo, eu topo te conhecer melhor sim, mas com uma condição....
Ricardo – e qual é...
Sissi – Sem sexo a princípio! Porque, apesar de tudo, eu ainda não estou pronta para ir para cama com outro homem!
Ricardo – Beleza!!!!!!!!!!!!!
Sissi – Você quer mesmo ficar comigo, fiquei até comovida!
Sissi sai extasiada como se fosse maluca e Ricardo observa.
Ricardo – Que mulher maluca!
Patrick – Como é que você pode fazer isso com a moça, Ricardo?!
Ricardo – O que eu posso fazer? Meu próximo personagem é um professor de academia galinha! E eu nunca cantei uma mulher antes!
Patrick – Mas já cantou homens!
Ricardo – Nós somos muito menos complicados! No nosso meio é olhar a mercadoria, gostar do que vê e levar para casa!
Patrick – Que horror! Foi assim que você fez comigo?
Ricardo – E não foi? Eu te conheci numa boate e te trouxe para casa!
Patrick – Eu te conheci numa boate e te trouxe para casa! Falando assim, até parece que eu sou um cachorro sem dono que você trouxe para casa e deu um lar!
Ricardo – Patrick, deixa de bancar a rainha do drama canastrona! Eu só estou fazendo laboratório para a novela!
Patrick – E você acha certo brincar com os sentimentos dela dessa maneira? E se fosse com você? Para piorar, a coitada acabou de passar por uma decepção amorosa!
Qual é Patrick? Os caras héteros vivem fazendo isso só para darem umazinha! Eu, ao menos, faço pela ARTE e não pretendo comer ninguém, se Deus me ajudar! Além disso, as mulheres estão acostumadas com esse tipo de coisa!
Patrick – Isso não é um raciocínio, é uma racionalização! Você está racionalizando para não se sentir culpado!
Ricardo – Patrick, para de bancar o grilo falante! Que saco! Eu não vou desistir da minha maior oportunidade na carreira por causa do seu ciúme idiota!
Patrick – Só uma pergunta: é assim que você pretende construir a sua carreira?
Ricardo – Assim como?
Lúcia – não está certo, o que tu anda fazendo com a Sissi!
André – E eu posso saber o que eu ando fazendo com a sua queridinha?
Lúcia – Tu sabe muito bem, a não ser que tenha perdido por completo a vergonha na cara!
André – Dona Lúcia, o seu filho sou eu, você se lembra? A Sissi já tem a mãe dela que toda hora vem de Porto alegre só pra me encher o saco! E eu, o que é que eu tenho? Uma mãe que me enche por causa da minha mulher muito mais que a minha sogra!

Lúcia – Olha como tu é! Tá errado e ainda quer apoio! E pior, o que tu anda fazendo é uma vergonha para tua tradição gaúcha! O que o pessoal do CTG vai pensar de ti?

(continua na parte 4/10) 


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Marcelo Assis da Silva é Técnico de Finanças e Controle Externo e atua na Secretaria de 
Controle Externo de Aquisições Logísticas. Estudou roteiro na Escola de Cinema Darcy Ribeiro 
no Rio de Janeiro e montou e dirigiu o espetáculo “Swing Tântrico” também no Rio de Janeiro. 
“O Primo Basílio” é uma adaptação teatral do romance de Eça de Queiroz. 


terça-feira, 17 de junho de 2014

Swing Tântrico - peça de Marcelo ASSIS (2/10)

Sissi – Enquanto eu aguardo a Dialética, eu fico sem homem?
Lúcia – Bah guria, mas claro que não! Arranja um amante que não seja tão capitalista como a maioria!
Sissi – Eu não sei se tenho coragem de trair!
Lúcia  - Guria, eu gosto de ti como se tu fosse a minha filha, por isso, eu vou te dizer: nenhum homem vale tanto!
Sissi – Nem o seu filho?
Lúcia – Principalmente ele! Pois eu não o conheço desde o dia em que nasceu? Se fosse ele no teu lugar, seus chifres seriam maiores que do cão!
André acessa à internet via celular.
André – Esteban Fernandes, terapeuta, telefone...
André tecla no celular enquanto sai de cena.
André – Alô esteban? Boa noite, espero não ser muito tarde para ligar, mas é estou precisando desesperadamente dos seus serviços...
Sissi entra e começa a ler um livro.
André entra com Esteban.
Esteban – Buenas tardes!
Sissi – Boa tarde! André, quem é esse homem? Não repara não moço, ele é meio lesado, não sabe nem apresentar as pessoas!
André – Esteban, esse é a minha esposa Sissi, que você já deve ter percebido é um doce! Sissi, meu bem, esse é o homem que vai salvar o nosso casamento!
Sissi – Ele não vai fazer macumba aqui dentro de casa, vai?
André – Nada disso meu amor! O Esteban aqui é um terapeuta!
Sissi – Você trouxe um terapeuta de casal aqui em casa num sábado à tarde?
André – Ele não é esse tipo de terapeuta!
Sissi – É de que tipo então? E por que você tá tão animado?
André – Ele é um terapeuta de sexo tântrico! Ele vai nos ensinar a fazer essa modalidade de sexo!
Sissi – Nós quem? Eu não vou participar dessa putaria!
André – Olha só quem fala! Dona imito as posições dos filmes pornô que vejo e nem sei com quem!
Sissi – Você vai jogar isso na minha cara para sempre? Seu brocha!
Esteban – Não é necessário essa discussão! Yo não vim fazer nada que a senhora está pensando!
Sissi – Eu não pensei nada! Quem pensou foi esse sem vergonha! O que o Sr. Veio fazer aqui?
Esteban – Ensinar à Senhora e ao seu marido a maravilha que é o sexo tântrico!
Sissi – Então veio fazer putaria mesmo! Eu é que não vou participar! Aposto, inclusive, que ele vai gravar e colocar na internet, ele tem cara de quem faz isso!
André – Larga mão desses seus preconceitos e vem com a gente!
Sissi – E desde quando você manda em mim? Tá tão louco para ter, a sua..., a sua aula de sexo tântrico que resolveu dá uma de machão! Agora, que eu não vou mesmo!
André – É, pois fique aí! Eu vou ter a minha aula com o Esteban!
Sissi – Sem mim?
André – Sem você!
Sissi – Jesus!!!!!!!!!!!!
André senta-se na posição de lótus e Esteban se posiciona à sua frente.
Esteban – Bueno André, a primeira cosa que você deve fazer é relaxar e chupar el ar bem devagar.
Esteban começa a respirar bem devagar e André começa a imitá-lo.
Esteban – Não André! Você tem que chupar el ar mesmo!
Sissi lendo o livro na sala ouve a voz de Esteban.
Esteban – Chupa André! Chupa com vontade! Você não está fazendo direito! Se entrega a esse momento!
Sissi – Não é nada disso que a Senhora está pensando!
Esteban  - Isso André! Você está conseguindo! Agora sim! Só precisa ser menos afoito! Mais devagar! Relaxa!
Sissi vira-se para a plateia.
Sissi –Mas era exatamente isso que eu estava pensando!
Sissi pega o celular e começa a teclar.
Sissi – Glórinha, tudo bem? Tou precisando desesperadamente de um aconselhamento seu como advogada! Mas não pode contar nada para o Renato, porque a nova mania do André é me acusar de falar mal dele para os amigos! Posso contar com a sua discrição? Que bom! O André virou boiola! Tou nem aí, cada um faz o que quer, mas trazer o amante para casa não é desaforo?! Ele tá transando com ele dentro do nosso quarto! Um velho horroroso! Deve tá cheio de doenças! Provavelmente argentino!Menina, ele tá dando para o cara aqui em casa, te juro! Ainda queria que eu participasse! Só quero saber se num eventual processo de divórcio, eu vou levar alguma vantagem por causa disso e quais? Porque, eu acho o cúmulo eu sair desse casamento corneada descaradamente e ainda completamente fudida! Sei..., é melhor a gente conversar no seu escritório na segunda, tá...., mas essa conversinha não vai me custar nada não, né? Então beleza!
Cena pararela.
Esteban – Deite-se de costas! Faça assim com as pernas! - Juntando as pernas de André – Agora abra as pernas bem devagar! Aaaaah! Aaaaah!
Esteban faz um gesto indicando que quer que André o imite.
André – Aaaaah! Aaaaah! (Várias vezes)
Esteban – Está sentindo uma poderosa energia sexual tomar conta de você?
André – Esteban, eu acho que eu vou desmaiar! É demais pra mim!
Esteban – Aaaaah! Aaaaah!
André - Aaaaah! Aaaaah!
Sissi – Nossa, vocês demoraram pra caramba, já é noite!
André – Engraçado, eu nem senti o tempo passar!
Sissi – Pois eu senti cada segundo!
André – Se tivesse feito a aula o tempo teria passado depressa! E você teria se divertido muito!
Sissi – É..., você parece que se divertiu..., quem diria! Quase dez anos que a gente se conhece e nunca suspeitei que você gostasse dessas coisas!
André – Pois saiba que desde a adolescência, eu queria ter essa experiência, mas só agora, eu tive coragem!
Sissi – Deve ter sido uma dessas descobertas causadas pelas ações dos hormônios, eu suponho!
André – Eu não sei! Eu só sei que quero mais!
Sissi – Aqui em casa?!
André – Por quê? Você se incomoda? Isso me deixou tão feliz!
Sissi – Incomodar, incomoda e muito! Mas já que você está feliz, faz o que você quiser! Mas não no nosso quarto! Usem a dependência de empregada para isso! E façam menos barulho, eu acho que mereço um pouco mais de respeito! Vocês não acham?
Esteban – Yo peço mil desculpas, é que às vezes yo me empolgo!
Sissi – Põe empolgação nisso!
André – Mas foi muito bom Esteban! Valeu cada centavo que eu paguei!
Sissi – O Sr. Cobra por isso?
Esteban – Si! Yo tenho a imensa alegria de ganhar a vida dessa maneira!
Sissi – quer dizer, que ainda é pago André?
Vídeo com a entrevista de Ricardo na TV.
Entrevistador – Boa noite! A todos vocês amigos telespectadores! Estamos aqui hoje com o queridinho das mulheres do país! Ricardo Salvatore! Ricardo, boa noite! Quais são seus próximos projetos!
Ricardo – Boa noite a todos! Bem, no momento estou apenas me dedicando ao meu próximo trabalho.
Entrevistador – Você vai ser o protagonista na próxima novela das 21 horas, não é?
Ricardo – Isso! E como sei que essa é a maior oportunidade da minha carreira, estou vivendo só para isso!
Entrevistador – E você pode nos falar a respeito desse seu primeiro protagonista?
Ricardo – Infelizmente, ainda é segredo! Mas em breve o pessoal de casa vai saber!
Entrevistador – Então, nós vamos ficar aguardando e torcendo por você! Boa noite e obrigado!
Ricardo – Eu é que agradeço!
Sissi – Ah Ricardo! O que eu sempre precisei foi de um homem como você!
Patrick – Com qual de suas amigas atrizes você vai sair hoje para enganar as coitadas das suas fãs que você é machão?
Ricardo – são as minhas fãs que pagam essa vida boa que a gente leva!
Patrick – É só isso que elas são para você, uma fonte de renda?
Ricardo – É que eu tenho que sustentar um gatinho muito caro!

Patrick – Isso! Joga na minha cara que me sustenta!

(continua na parte 2/10)

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Marcelo Assis da Silva é Técnico de Finanças e Controle Externo e atua na Secretaria de Controle Externo de Aquisições Logísticas. Estudou roteiro na Escola de Cinema Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro e montou e dirigiu o espetáculo “Swing Tântrico” também no Rio de Janeiro. “O Primo Basílio” é uma adaptação teatral do romance de Eça de Queiroz.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Swing Tântrico - Peça de Marcelo ASSIS (1/10)

Sissi fala ao celular.
Sissi – Alô Adriano? Aqui quem fala é Sissi, tudo bem? Adriano, desculpe te
incomodar, mas eu posso te fazer uma pergunta? Lega! O que eu quero saber
é..., é..., você me acha gostosa? Se eu quisesse te dar, você me comeria? Ah,
que bom! Se eu estou procurando? Procurando o quê? Não, o que é isso! Eu
só estou insegura, porque hoje faz exatamente um ano que o André não transa
comigo, tou achando que sou eu! É isso mesmo que você ouviu, faz um ano
que ele não quer nada comigo! É claro que eu te conto tudo, até mesmo
porque você, como amigo, pode até ajudar!
Som de filme pornô.
André – O que é isso?
Sissi – Vai dizer que faz tanto tempo que esqueceu o que é?
André – É lógico que eu sei o que é, mas porque você está vendo esta merda?
Sissi – Pra vê se as coisas esquentam um pouco neste quarto!
André – Com isso? Mas eu nunca gostei de filme pornô!
Sissi – Como nunca gostou? Cansamos de ver esses filmes juntos! Até
imitamos algumas das posições, você não se lembra?
André – Eu não sei com quem você teve esses lindos momentos de putaria
meu amor, mas espero que tenha sido antes da gente se conhecer, porque eu
nunca vi um filme pornô com você, porque EU DETESTO ESSE GÊNERO DE
FILME!
Sissi - Tem certeza?
André – Tenho, você deve ter feito essa sacanagem toda com o seu surfista
carioca.
Sissi – Quem me dera!
Sissi se volta para André e começa a dançar uma dança sensual para ele.
Sissi – E aí amor, tá gostando?
André – Tá maluca Sissi? Por que você tá se sacudindo desse jeito?
Sissi - Eu estou dançando seu palerma! A mesma dança que fiz pra você no
seu aniversário e não me diga que dancei pra outro!
André – Essa é a dança do meu aniversário?! Eu devia estar muito chapado,
porque tinha achado isso até legalzinho...
Sissi – Legalzinho? Isso é legalzinho?
André – não, isso é um chute no saco! É isso que você ensina aos seus
alunos? Sissi, sai da frente da TV porra! Não tá vendo que eu tou assistindo?
Sissi empurra André para fora de cena. Sissi volta a falar no celular.
Sissi – Lúcio, se eu quisesse te dá você me comeria? Por que todo mundo me
pergunta se eu estou procurando? Não estou procurando nada! O negócio é o
seguinte, o André não quer nada comigo e...
André entra com um bolo com uma vela em cima.
Sissi – O que é isso?
André – Um presente que meus amigos ofereceram para nós!
Sissi – É mesmo? E por quê?
André – Quando cheguei no trabalho, eles me disseram que hoje estávamos
comemorando uma data muito especial...
Sissi – Uma data muito especial?!
André – É! Eu também estranhei, até perguntei se eu tinha que te comprar um
presente, mas aí me disseram que eu tinha é que comprar um viagra...
Sissi – eles estavam te sacaneando...
Sissi dá um passo para trás.
André – Foi o que eu pensei, mas quando eu estava no banheiro aliviando os
intestinos, ouvi dois deles dizendo que a Senhora ligou para eles para dizer
que não fazemos sexo faz um ano e ainda disseram que você contou que
estava cansada de dominar na cama e o melhor de tudo: eu não consigo que
ele tenha uma ereção, nem meia ereção, nem um começo mixuruca de ereção!
Como você pode mentir desse jeito e me humilhar perante os meus amigos!
Sissi – Mentir não! Eu não contei nada que não fosse a mais pura verdade!
André – Como não mentiu? Deve fazer, no máximo, uns 15 dias que não
transamos!
Sissi – Você deve tá me confundindo com a sua esposa imaginária! E mais, se
seu amigões ficam te sacaneando quando sabem que você tem problemas, ao
invés de te dá uma mão, você deveria é ficar com raiva deles e não de mim,
você deveria, inclusive, romper com eles.
André- Eu deveria é te dá umas porradas!
Lúcia- E se enquadrado na Lei Maria da Penha? É isso que tu quer guri?
André – Mãe, fique fora disso!
Lúcia – Não senhor! Eu não posso concordar com uma violência contra a
mulher!
André – É incrível! Você está sempre do lado dela! Não vejo a hora dessa
maldita reforma no seu apartamento que parece nunca ter fim terminar!
Lúcia – Bah! Olha a malcriação! Não pensa, só porque tu tem esse tamanho
todo, guri, que eu não te dou umas boas chineladas!
André – Desisto! Fique aí com a sua queridinha!
Lúcia – O que foi Sissi?
Sissi – Lúcia, esse seu filho está cada dia pior! Faz um ano que ele não faz
sexo comigo e ainda queria me bater!
Lúcia – Um anos sem sexo? Quem deveria dá uma surra nele era tu, guria!
Que absurdo tchê!
Sissi – Pra você ver, Lúcia! Aliás, eu achei ótimo você está morando com a
gente por uns tempos para ver o quanto eu sofro!
Lúcia - Mas que verginha tchê! Por que esse guri não toma um Viagra? Um
filho, que além de brocha é burro, é muito sofrimento para uma mãe!
Sissi se afasta de Lúcia. André se posiciona atrás de Sissi.
Sissi – E o pior é que nem sempre foi assim! No início era..., ai amor, você só
pensa nisso! Era tanto fogo que passou para: porra André! Você só pensa
nisso!
André – Mas eu estou com vontade amor!
Sissi – Mas eu não! Você pensa que eu sou o quê? Uma boneca inflável que
você usa quando quer?
André – O que você quer que eu faça?
Sissi – Bata uma punheta e não me encha o saco!
André sai.
Sissi – Nisso que deu tanto fogo inicial!
Lúcia – Perdão, eu não entendi.
Sissi – Eu acredito que Deus dá a cada casal um determinado número de
relações sexuais. Gastamos tudo no início, agora não sobrou mais nada!
Lúcia – Pode ser..., o Paulo era devagar quase parando e tivemos sexo até ele
morrer!
Sissi – Viu? Ele soube poupar para o futuro! Mas você não se incomodava dele
não ser um homem fogoso!
Lúcia – Não, porque eu tive vários homens fogosos! E..., sabe que tu pode ter
razão, guria? Esses casos nunca duravam muito tempo...
Sissi – Você traiu o seu Paulo?
Lúcia – Por quê? Você nunca traiu o André?
Sissi – É claro que não!
Lúcia – Mesmo estando há um ano sem sexo? Mas tu gosta de homem, né?
Sissi – O quê? Você enlouqueceu Lúcia! É lógico que o meu negócio é homem!
Lúcia – que bom! Não que eu tenha preconceito, mas tu é tão bonita para ser
sapatão guria! Mas sabe de uma coisa? Eu acho que as ideias de Marx
também podem explicar esse comportamento do André e dos homens em
geral...
Sissi – Como? Você acha que há uma ligação entre o comunismo e a libido
masculina e que a queda de um resultou no declínio da outra?
Lúcia – Não, Marx dizia que o Capitalismo levava a alienação e como
consequência dessa alienação as pessoas se tornam coisas e as coisas
pessoas...
Sissi – Hã?
Lúcia – Resumindo, uma mulher vale menos que um carro para o alienado
macho capitalista. – para a plateia – Não é verdade!
Sissi – Putz! Isso é mais pura verdade!
Lúcia – Total!
Sissi – E o que nós mulheres podemos fazer?
Lúcia – Sentarmos e aguardarmos a Dialética acabar com o Capitalismo!
Sissi – Dialética?
Lúcia – É um conceito que Marx “desenvolveu”, no qual, como o grande
intelectual que era, ele explica, explica e explica meeeesmo – entediada – só
para ter certeza que nós entendemos – pausa – o quanto ele é mais inteligente
do que nós – irônica – ao nos dizer algo que já sabemos: não há bem que
sempre dure e nem mal que nunca se acabe. Ou seja, o Capitalismo está
fadado a acabar! Essa crise mundial não passa da dialética em ação! É só
sermos perseverantes e aguardarmos mais um pouco!

(continua na parte 2/10)

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Marcelo Assis da Silva é Técnico de Finanças e Controle Externo e atua na Secretaria de Controle Externo de Aquisições Logísticas. Estudou roteiro na Escola de Cinema Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro e montou e dirigiu o espetáculo “Swing Tântrico” também no Rio de Janeiro. “O Primo Basílio” é uma adaptação teatral do romance de Eça de Queiroz.

terça-feira, 3 de junho de 2014

O Primo Basílio (parte 10/10) - Peça Teatral de Marcelo ASSIS

Basílio e Reinaldo entram.

Basílio – Sabes?
Reinaldo – O quê?
Basílio – Minha prima morreu!
Reinaldo – Coitada! Deixar-se morrer num tempo tão lindo!
Basílio – É...
Reinaldo – Mas você sabe que sempre achei a história de vocês absurda, o que tinha ela demais? Não era uma amante chic, andava em tipoias de praça, usava meias de tear, casara com um reles indivíduo de secretaria, vivia numa casinhola, não possuía relações decentes, devia jogar naturalmente o quino e andava por casas de sapatos de ourelo, não tinha espírito e  não era uma mulher sofisticada! Ou seja, era um trambolho!
Basílio – Servia para um ou dois meses de estadia em Lisboa...
Reinaldo – Para isso talvez, como higiene! Mas, falando nisso, ao investir na sua finada prima, estás agora sem mulher!
Basílio – Que Merda! Podia ter trazido a Alphosine!

Basílio e Reinaldo saem.

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Marcelo Assis da Silva é Técnico de Finanças e Controle Externo e atua na Secretaria de Controle Externo de Aquisições Logísticas. Estudou roteiro na Escola de Cinema Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro e montou e dirigiu o espetáculo “Swing Tântrico” também no Rio de Janeiro. “O Primo Basílio” é uma adaptação teatral do romance de Eça de Queiroz.

terça-feira, 27 de maio de 2014

O Primo Basílio (parte 9/10) - Peça Teatral de Marcelo ASSIS

Juliana – Sério!? Porque tu falhaste no cumprimento deste dever também! Mas isso não é da minha conta, isto com a Senhora e a sua consciência, isso se a Senhora tiver alguma, porque a julgar pela sua insensibilidade quando me explorava com os engomados, mesmo sabendo que eu estava doente e os banhos, todos os dias a Senhora e o Seu marido tinham que se banhar! Que absurdo! E a negra aqui é que tinha que ficar subindo e descendo para encher e esvaziar as bacias!
Luísa – Mas o que querias tu? Que não lhe desse tarefas?
Juliana – Queria que a Senhora pensasse, que seus luxos e futilidades, tinham um preço! O meu esforço! É claro, que eu tinha que ter tarefas, mas deveria ter tantas? Achas justo que pela ninharia que me pagavas tivesses o direito de consumir toda a minha energia? E tu nem tinhas penas dos meus problemas de saúde, quando te pedia para ir ao médico dizias impaciente: Vá, mas não demora-te, como se dissesse ou se cura de uma vez, ou morre! Alguma vez a Senhora pensou que poderia me poupar a mim e a minha saúde?
Luísa – E tu pensaste nisso quando começou a me explorar? Tu me colocaste para limpar, varrer, engomar, até os despejos tinha que fazer!
Juliana – Mas minha senhora, nada do que te pedi era mais do que tu me mandavas fazer, na verdade, a Senhora não passou a tomar tantos banhos e  nem querer tantos engomados e nem era tão exigente consigo com eles como era comigo! Ai de mim se suas roupas e as do seu marido não estivessem perfeitamente engomadas! Suas queixas só comprovam que estou certa: que o trabalho na sua casa era demasiado. Tive sim prazer em vê-la passar pelo que passei em sua casa! Vendo-a sofrer, sua saúde se esvair pagar como eu pela suas futilidades e pequenos prazeres que não podias abrir mão, porque tinha a escrava aqui para explorar!
Luísa – que tiveste um enorme prazer com o meu sofrimento, eu nunca duvidei! Tu sempre tiveste inveja de mim porque sou bela e tu sempre foste feia e ninguém nunca te quis!
Juliana – E a senhora tão linda, mas tão burra! Só de por os olhos naquele janota do seu primo, vi que as intenções Del eram as piores possíveis....
Luísa – Uma cobra com certeza reconhece outra imediatamente...
Juliana- Pode ser minha Senhora, mas tinha comigo, se ela for uma mulher decente a de pô-lo para correr este pulha e ele nunca mais retornará. Mas ele veio um vez, duas, três e a Senhora a agir como uma adolescente. Tu se achavas tão esperta que conseguia me enganar, mas eu  o tempo todo sabia o que acontecia. Tu és tão burra, que nem suspeitou quando do nada, fingi gostar de ti e até adorar se explorada por ti. Deves ter achado que finalmente descobri qual era o meu lugar! Eu fui deixando a Senhora a vontade sabendo que a minha grande oportunidade estava por vir!
Luísa – Me roubar e me chantagear? Esta foi a grande oportunidade da sua vida! Que patético!
Juliana – É patético, mas quem nasceu embaixo como eu Senhora, não pode se dar ao luxo de ser digno, por isso vivemos para servir pessoas como tu! Para pessoas como eu, é melhor ser chantagista que ser escrava!
Luísa – Se achavas tão ruim a vida como criada, por que não foste fazer outra coisa?
Juliana – Que outra vida poderia ter? talvez me casar com um rico negociante, ou talvez poderia viver junto a Senhora e Seu primo no Paraíso! Pessoas como eu não têm, a Senhora teve escolha e o que escolheu? Jogar tudo o que tinha na lata do lixo e pelo o quê? Por causa daquele seu primo, que não tinha um gesto, ou frase que não fosse falso, pelo jeito dele se vestir, falar e se comportar era óbvio quem é tão afetado e é sincero? Ele nem era um homem! Tanta frescura  nas vestimentas e nos gestos pra mim ao menos fazia dele um afeminado! Tu, porque és como a maioria das pessoas da tua classe, por não conseguir enxergar além das aparências caíste de amor por aquele maricas! Trocou um homem de verdade por aquilo: um monte de frescuras!
Luísa – Chegaste tarde, já me dei conta do meu erro!
Juliana- Mas entendeste, a razão de erraste? Entendeste o quanto eras cega? E o porquê desta cegueira?
Luísa – Isto não é da sua conta! Pare de me infernizar! O que você quer mais de mi? Eu lhe dei minhas roupas, meus pertences, trabalhei por você! Tu me roubaste as minhas cartas, me chantageou! Jorge vivia discutindo comigo por causa porque o seu quarto era quase tão bom quanto o nosso e tu vivias como se tu fosse a patroa e eu a criada. Vivi um verdadeiro inferno por tua causa.
Juliana – Ora, se não querias me servir, bastavas seres honesta com o seu marido. Tu não és mais nobre que a chantagista patética aqui? Foi seu adultério e sua covardia que a transformaram numa serva. O que eu deveria fazer depois de descobrir as suas safadezas? Continuar sendo sua escrava a troco de quase nada, aturando seu ódio e seu desprezo servilmente? Era isso que esperava de mim? Me diga, o que tu farias no meu lugar?
Luísa – Eu seria fiel a minha Senhora! Teria pena dela!
Juliana – Como? Se não foste fiel nem ao seu marido, que era sua obrigação! E por que deveria eu ser fiel a ti? Eu te odiava e tu a mim! Se tu nunca tiveste pena de mim, porque ter pena de ti?Eu não tinha pena nenhuma, eu e minha tia ficamos foi rindo das cartas ridículas principalmente o trecho no qual seu amante dizia: hoje não posso ir, mas espero-te amanhã às duas, mando-te essa rosinha e peço-te que faças o que fizeste à outra, trazê-la no seio porque é tão bom quando vens assim, sentir-te o peitinho perfumado! Ridículo, só uma mulher ridícula como tu para achar isso romântico, deve algum tipo de doença de família!
Luísa – Por que tu não me deixas em paz?
Juliana – Se tivesse dado o meu dinheiro minha Senhora eu teria te deixado em paz!
Luísa – Se tu tivesse ido embora e esperasse que eu lhe desse o dinheiro ao invés de ficar dentro da minha casa me torturando tu terias o teu dinheiro, mas tu não conseguiste esperar três meses calada em silêncio!
Juliana – Eu esperei em silêncio. Até que Vossa Alteza chegou em casa furiosa porque o homem dela não estava esperado por ela no tal paraíso e começou a açoitar a negrinha aqui! Foi o máximo de destrato que eu podia suportar! Depois, minha tia me aconselhou a ficar na sua casa e explorar o medo que tu tinhas de mim e tirar o melhor partido que pudesse disso, foi o que eu fiz e não me arrependo, pelo menos o final da minha vida foi vivido com alguma dignidade! Num quarto de verdade, com roupas de verdade, comendo do bom e do melhor e sem ser escrava de ninguém!
Luísa – Só te faltaste um homem!
Juliana – A Senhora teve dois está pior do que eu! Sem falar que terminou seus dias me servindo! Torceste tanto pela minha morte, deves ter ficado muito feliz com ela, mas não esperava que o destino estivesse planejando o mesmo para ti! Não adiantou!
Luísa – Eu estou morrendo por sua causa.
Juliana – Eu também! Mandar Sebastião vir com um policial me assustar e me obrigar entregar as cartas! Achou que ia ser feliz e tá morrendo feito um cachorro! Eu pelo menos tive uma morte rápida! Quais são seus sentimentos em relação a isto? Eu morri imediatamente, teu homem tá com outra na França e tu sofrendo, sofrendo numa cama! Rasparam até o seu lindo cabelo! Por que será minha Senhora?! Eu pelo menos tive um final melhor que vocês traçavam para mim, me jogar na rua por causa do meu aneurisma e do problema do coração, que morresse num hospital se tivesse sorte, não era problema de vocês! Não podiam mais me explorar, que fosse para inferno! Mas morri rápido e passei meus últimos dias como sonhei. Tu terminaste os seus no inferno e Deus ainda foi cruel contigo, deixou-te acreditar que ia volta ao céu, mas te atitou de volta para o inferno! Quem será que deve ser o pior dos três?
Luísa – Esse sofrimento deve ser a minha chance de ir para o céu! Tu, com certeza, ireis para o inferno!
Juliana – Tu que eras tão boa, mas tão boa, que permitia que baús fossem mais bem tratados em tua casa que suas criadas! Baús que não têm sentimentos e nem saúde! Tu que a tua vida inteira só se preocupastes com futilidades! Tu que traíste o teu marido movida por fantasias de menina, quando já és faz tem uma mulher! Tu que tiveste de abandonar o meu corpo como seu fosse um animal sem me velar! O teu destino é o mesmo que o meu! É por isto que eu estou aqui! Anda! Prepara-te, vim te buscar! A tua hora chegou!
Luísa – Tu vieste me buscar?!
Juliana – O que esperavas! O Arcanjo Gabriel?  Ou a Virgem Maria! Anda, vem!
Luísa – Bem, se esse é o meu destino! Eu não ficar reclamando e resmungando como tu viveste a fazer! Vamos!
Juliana – Não queres saber para onde?
Luísa – Não! Vamos!

Luísa e Juliana saem.

(continua na parte 10/10)

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Marcelo Assis da Silva é Técnico de Finanças e Controle Externo e atua na Secretaria de Controle Externo de Aquisições Logísticas. Estudou roteiro na Escola de Cinema Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro e montou e dirigiu o espetáculo “Swing Tântrico” também no Rio de Janeiro. “O Primo Basílio” é uma adaptação teatral do romance de Eça de Queiroz.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O Primo Basílio (parte 8/10) - Peça Teatral de Marcelo ASSIS

Luísa – Minha querida Luísa. Seria longo explicar-te, como só antes de ontem em Nice, de onde cheguei esta madrugada de Paris, recebi a tua carta que pelos carimbos vejo que percorreu toda a Europa atrás de mim. Como já lá vão dois meses e meio que a escreveste, imagino que te arranjaste com a mulher, e que não precisas do dinheiro. De resto se por acaso o queres, manda o telegrama e o terá aí em dois dias. Vejo pela tua carta que não acreditaste nunca que a minha partida fosse motivada por negócios! És bem injusta. A minha partida não te devia ter tirado, como tu dizes, todas as ilusões sobre o amor porque foi realmente quando saí de Lisboa que percebi quanto te amava, e não há dia, acredita, em que não me lembre do Paraíso... – pausa – Que boas manhãs! Passaste por lá por acaso alguma outra vez? Lembras-te do nosso lanche? Não tenho tempo para mais. Talvez em breve volte a Lisboa. Espero ver-te, porque sem ti Lisboa é para mim um desterro. Meu deus, esperei tanto uma resposta e quando chega, não preciso mais e nem o dinheiro ao menos. Só as mesmas mentiras que já estava farta, penso que meu primo deve sofrer de alguma doença mental que o leva mentir compulsivamente, mesmo quando era óbvio que a única resposta que queria receber era os Malditos seiscentos mil-réis pelos quais a Juliana me atormentava. O que eu recebo é um monte de mentiras! Mas veja esse trecho: A minha partida, não te devia ter tirado, COMO TU DIZES, TODAS AS ILUSÕES DO AMOR! Veja, eu já não amava mais, aliás, tinha tido a confirmação que nunca tinha o meu Primo, sempre foi você que eu amei de verdade!
Jorge – Esse Paraíso que ele tanto fala? Voltastes lá como ele te pergunta?
Luísa – Nunca, e se voltasse lá, só teria mais uma confirmação de que Basílio não significa mais nada para mim, Me perdoa Jorge, seja bom comigo!
Jorge – E quanto a ti? Tu foste boa comigo? O que foi que eu te fiz para que fizesse o que fez comigo? Eu te adorava!
Luísa – Eu sei que errei Jorge, mas estou pagando, pagando com a decepção com Basílio, com os tormentos de Juliana, com a culpa e vergonha que sinto perante ti e tanto sofrimento que este está roubando a minha energia vital, tu não percebes que eu estou morrendo? Que preço maior posso pagar pelos meus erros do que com a minha própria vida? E não lamento por isso! A única coisa que lamento é que o infame que causou toda essa desgraça junto comigo esteja em Paris feliz, provavelmente achando que li sua carta e acreditei em todas as suas mentiras e que ansiosamente espero reencontrá-lo quando retornar a Lisboa, isso me dói mais do que a morte!
Jorge – Luísa, por favor, não fale em morte! Tu não vais morrer!
Luísa – Infelizmente vou! eu sinto a minha vitalidade cada vez mais se extinguindo, como na ampulheta de meu pai com a qual eu gostava de brinca na minha infância, não me resta muito tempo agora, eu só peço que tu me perdoes.
Jorge - Escuta-me! Ouve, pelo amor de Deus! Não estejas assim, fazes por melhorar! Não me deixe s neste mundo, não tenho mais ninguém! Que te pede perdão sou eu! Diz que vais continuar ao meu lado!
Luísa começa a chorar.
Luísa – A se eu pudesse...
Jorge – Mas tu podes!
Luísa – Eu sempre quis uma grande prova de amor, achava que ela deveria chegar até mim como nos livros e agora só às portas da morte, percebo o que é o amor e o que é se sentir amada realmente por um homem.
Voz em off – Jorge, venha preciso falar contigo. Não, não está morta, está naquela sonolência..., já te disse, que ela não ouve, vem!
Jorge – Está bem, eu vou!  - saindo – Eu estou bem..., obrigado!
Luísa – Adeus amor!
Mudança de iluminação.
Luísa sente uma presença funesta se aproximando e começa se abraçar como se quisesse se proteger.
Juliana entra.
Luísa – Só podia ser tu! O que viestes fazer aqui? Terminar de atormentar? Achas que não foi o bastante tudo o que me fizestes?
Juliana – O que lhe fiz eu minha Senhora?
Luísa – Não sejas cínica! Tu sabes tudo o que me fizestes!
Juliana – E tu piorrinha! Sabe tudo o que me fizestes?     
Luísa – Eu criatura? Eu nunca te fiz nada!
Juliana – O seu primeiro ato de vilania foi nunca ter gostado de mim, ou negas? Pensas que não te ouvi dizer ao corno do seu marido: Estou a tomar ódio desta criatura! Não que isso fosse necessário, porque você nunca disfarçou sua antipatia por mim, por isso eu passei a detestá-la mais que qualquer outra Senhora que tive o desprazer, e credite foi um desprazer servir todas elas, mas tu foste a pior!
Luísa – Eu? Realmente, não gostava de ti, mas com justo motivo, tu sempre fostes muito antipática!
Juliana – Antipática? Porque não vivia a sorrir para ti, ou porque não me tornei sua confidente? Porque deveria ser simpática com a Senhora o quarto que disponibilizaste para que eu dormisse, um cubículo, em sua casa era baixo, muito estreito, que no verão era abafado feito um forno! A cama era um leito de ferro com um colchão de palha mole coberto com uma colcha de chita. No jantar tu não me davas vinho e nem sobremesa!
Luísa – E o que tu querias? Eu sei muito bem, querias que te desse a vida de rainha que com suas chantagens conseguiu arrancar de mim!
Juliana – Realmente, minha Senhora, tu és tão boa, que tive que chantageá-la para conseguir algum conforto! Tão boa que só não fui embora de sua casa, por três motivos: a Senhora não tinha filhos, eu achava a rua saudável e por último, porque tinha a estúpida daquela cozinheira nas mãos, podia por causa disso comer decentemente, porque se fosse por sua causa, eu só comia sobras! Se não fosse por isso, eu te diria aonde a Senhora podia enfiar sua casa...
Luísa – Primeiro, eu não tinha culpa do quarto que tu dormias, o tal quarto já servia a este fim antes do meu casamento.
Juliana – Mas, como a sua sogra já havia morrido quando se mudaste para a casa, a senhora poderia mudar essas coisas se quisesse, mas não quis....
Luísa – Não foi por maldade, eu simplesmente nunca parei para pensar nisso, eu tinha mais com o que me ocupar!
Juliana – Com o quê? Qual a nova moda de Paris? Ou o novo sucesso do teatro? O que a Senhora tinha de tão importante para se ocupar que a levaste a negligenciar o bem estar de suas criadas?

Luísa - O meu marido!

(continua na parte 9/10)

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Marcelo Assis da Silva é Técnico de Finanças e Controle Externo e atua na Secretaria de Controle Externo de Aquisições Logísticas. Estudou roteiro na Escola de Cinema Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro e montou e dirigiu o espetáculo “Swing Tântrico” também no Rio de Janeiro. “O Primo Basílio” é uma adaptação teatral do romance de Eça de Queiroz.

terça-feira, 13 de maio de 2014

O Primo Basílio (parte 7/10) - Peça Teatral de Marcelo ASSIS

Mudança de iluminação.

Jorge entra.
Jorge – Tu estás tão linda quanto naquele verão no qual eu me apaixonei por ti! Os seus cabelos lindos, o seu jeito de andar, os seus olhos tão meigos.
Luísa – Eu no começo não gostei de ti, porque não gostava de homens barbados – acariciando a barba de Jorge – mas depois vi que era a primeira barba e que era muito fina, rente e muito macia. E mesmos sem amá-lo sentia ao seu lado uma fraqueza, uma dependência e uma vontade de adormecer encostada no seu ombro e de ficar assim muitos anos, confortável, sem receio de nada! Me senti nas nuvens quando tu me disseste: Vamos casar, hem!
Jorge – Foi de supetão Todos disseram que eu casei no ar! Mas eu sabia que era você! O dia do nosso casamento foi o dia mais feliz da minha vida!
Luísa – Um dia de nevoeiro tão denso que nada tinha contorno tudo me parecia como um sonho antigo. No meio de toda aquela névoa, poucas coisas se destacaram, como a cara do padre e de uma senhora horrorosa que ficava rogando praga nas pessoas durante a saída da igreja. Acho que estava morrendo de medo da minha nova vida
Jorge - Mas logo se adaptaste, porque se tornou uma excelente dona de casa, me sentia o mais feliz dos homens ao seu lado.
Luísa – Tu era meu marido, era novo, forte, bonito, alegre e tão bom para mim, que logo passei a te adorar. Passei a nutrir uma curiosidade constante de tua pessoa e das suas coisas! Te comparava aos maridos das outras e me orgulhava de ser sua esposa. Tu sempre me tratavas com as delicadezas de um amante, ajoelhando-se aos meus pés e com tanto dengo. Você passou a ser meu tudo, a minha força, o meu destino, a minha religião, o meu homem! Agradeci a Deus, por não ter me casado com Basílio.
Mudança de iluminação.
Luísa – Ah!
Jorge – O que é?
Luísa – O jornal está informando que meu primo Basílio está vindo a Portugal! Deve chegar por estes dias à Lisboa, vindo de Bordéus, o senhor Basílio de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. Sua excelência que, como é sabido, tinha partido para o Brasil, onde se diz reconstruíra a sua fortuna com honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o começo do ano passado. A sua volta à capital é um verdadeiro júbilo para amigos de Sua Excelência que são numerosos. E são!
Jorge – Bom pra ele! E vem com fortuna, hem?
Luísa – Parece!
Jorge – Naquele instante, eu não entendia que a desgraça estava vindo do estrangeiro para se abater sobre a minha vida!
Luísa – Nem eu!
Jorge – Tens certeza!
Luísa – o que queres dizer?
Jorge – Ao leres a notícia, não pensastes nele? No amor que tiveram no passado?
Luísa – Juro que não?
Jorge – Parecia tão animada ao comentar o seu retorno! Será que não era algo que você aguardava silenciosamente dentro de ti?
Luísa – Não havia nenhuma maldade em mim quando li a notícia.
Jorge – Então, porque estavas tão animada com a volta de alguém que havia partido o seu coração no passado?
Luísa – Porque ele não significava mais nada para mim!
Jorge – E por que ficasse tão feliz!
Luísa – Porque ele era o meu primo!
Jorge – Um primo que machucou o teu coração!
Luísa – Mas, eu já o havia perdoado, porque tinha me apaixonado por ti!
Jorge – Mas tu concordastes com a notícia quanto ao fato dele ter muitos amigos! Parecia que o adorava! Pensei que o adoravas como prima, mas ambos sabemos que isso não era verdade!
Luísa – Jorge, tu viestes me atormentar na minha morte!
Jorge- Só quero saber a verdade!
Luísa – A verdade, que a minha história com Basílio era um livro cuja história não tinha terminado! Eu me iludia que havia sido finalizada, mas estava no meio. Havia algo em mim que clamava por esse fim. Eu tinha que ser Basílio! Eu não sabia, mas só assim para nossa história ter seu fim.
Jorge – Quando eu te disse: Vai ficar sem o seu maridinho, hem? Tu ficastes feliz, pensando que talvez teu primo viesse te procurar?
Luísa – Não pensei em nada! Eu te juro! Fiquei inclusive triste com a sua viagem! E como senti a tua ausência! Se não tivesse me sentindo tão só...., eu te imaginava triste e solitário morrendo de saudades de mim, minha única alegria era pensar que tu estavas também pensando em mim, bem como sentindo a minha falta também. Mas quando Basílio veio, parece que me esqueci de tudo! Parece que o meu coração havia voltado no tempo, para uma época na qual eu ainda não te conhecia. Para ele só existia Basílio e seus caprichos tolos e atenções hipócritas pelos quais ele se comovia. Minha mente ainda tentou lutar contra, mas depois vendo que era inútil se entregou ao que exigia o meu coração tirano! Mas lembras quando tu retornastes?
Mudança de iluminação.
Luisa – Quando tu voltastes, meu coração abandonou o passado e voltou para o presente, Basílio só era uma recordação patética que eu fazia questão de esquecer! Só tu me interessavas! Com a tua chegada, a alegria voltou a tomar conta da minha alma, mesmo com Juliana me infernizando e torturando, quando estava a sós contigo em nossa alcova, eu era a mulher mais feliz do mundo. Pensava em Juliana, que por mais que me infernizasse nunca conhecera e nunca iria conhecer o prazer que sentia.
Jorge – Sim, tu de noite eras outra! Passei até a chamar-te de ave noturna. Ficava em êxtase vendo-te dançar, rir e cantarolar com seus braços e colo nus, o prazer que isso me dava era tanto que quando te amava em nossa cama, eu me sentia no paraíso....
Luísa fica desconcertada ao ouvir a palavra paraíso.
Jorge – Mas infelizmente não era comigo que tu se sentias no Paraíso, hem?


Jorge tira do bolso e entrega a Luísa a carta. Luísa pega a carta e começa a ler.

(continua na parte 8/10)

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Marcelo Assis da Silva é Técnico de Finanças e Controle Externo e atua na Secretaria de Controle Externo de Aquisições Logísticas. Estudou roteiro na Escola de Cinema Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro e montou e dirigiu o espetáculo “Swing Tântrico” também no Rio de Janeiro. “O Primo Basílio” é uma adaptação teatral do romance de Eça de Queiroz.

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