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segunda-feira, 16 de março de 2015

O sermos nós - Artigo de Ubiratan Aguiar

O sermos nós

HUMANISMO

Passageiro do tempo, no vagão dos sonhos, chego à estação da reflexão, onde são postos ao exame dos viajantes os produtos que fazem a construção da existência. No recôndito dos lares, no aconchego da família, núcleo básico e essencial da Nação, recolhem-se os fundamentos da solidariedade, da obediência e respeito, do amor fraterno, da doação, renúncia e crença no amanhã.

Nas ruas da minha cidadezinha do interior, a paz passeava descompromissada, sem receios da violência, falando de amor com os olhos fixos nas cadeiras da calçada onde os vizinhos discorriam sobre os fatos do cotidiano, da política ao futebol e, invariavelmente, sobre chuvas, inverno e produção, riqueza extraída da agricultura através das mãos limpas e calejadas do homem do campo.

Viva-se à época das cartas e telegramas, que traziam notícias da metrópole e, informavam sobre a vida dos que migravam em busca de melhores oportunidades de emprego. Hoje o facebook. o whats app., através da Internet, aposentaram o código código Morse e o faz, dissipando na velocidade dos inventos, os encontros familiares, em parte já dispersos pelo trabalho e o crescimento populacional urbano. Eis o tempo em que falamos com mais facilidade com os mais distantes do que os mais próximos.

A evolução da ciência e da tecnologia, fruto da capacidade criadora do ser humano, esqueceu-se dos valores primordiais, essenciais à comunidade. Relembrando o compadrio das festas juninas, da mão estendida ao próximo, da educação ensinando e sobretudo cuidando da formação cidadã, reclamamos a necessidade de recolhermos três opções fundamentais extraídas da gramática, com o objetivo da construção de um mundo onde haja a prevalência do humanismo sobre o avanço avassalador de um materialismo sufocante e sem alma. Falo da opção gramatical pelo artigo, pronome e pelo verbo.

Entre artigos definidos e indefinidos, o primeiro ressalta a procura da qualificação. A pessoa deve ter presente o desejo de ser o profissional e não um profissional. Com essa opção, registra seu compromisso com a causa que abraça, o mergulhar de cabeça naquilo que faz. Em relação ao pronome, destacam-se a nitidez e a solidariedade do Nós na edificação de um mundo melhor, distante do egoísmo do Eu, que imagina tudo poder e fazer. Lembro nesta hora a grande lição do Mestre trazendo a presença do homem e da mulher para a concretização da vida.

Por fim a opção pelo verbo. Diante do Ter, de que todos necessitam para viver, há uma observação a ser feita. Precisamos Ter na medida exata de essencial. A busca desenfreada de muitos em Ter sempre mais e mais lhes retira a possibilidade de Ser. Portanto, a opção pelo Ser deixa evidenciado à luz da experiência e dos fatos: quem procura obsessivamente Ter jamais será, e, para os que buscam Ser o Ter vem como consequência natural. Necessitamos, então, investir nos valores do humanismo, sedimentando a ética e a moral na formação das gerações. Esta é a revolução que está posta diante dos olhos da humanidade.


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Ubiratan Diniz de Aguiar  é Ministro aposentado do Tribunal de Contas da União e membro da Academia Cearense de Letras. Reside atualmente em Fortaleza (CE)

domingo, 8 de março de 2015

Poema Lírico - de Ubiratan AGUIAR

Como dizer palavras
Se as sílabas soam difíceis?
Como reuni-las em verso
Se a rima emudece?
Como cantar o interior
Se o exterior não ouve?

Como concluir o texto
Se o pensamento fala?
Como exprimir os sonhos,
Se os olhos não abrem?
Como vivenciar a vida
Se o verbo não se fez carne?

Como caminhar viagens
Sem estações de parada?
Como dizer sentidos
Se a matéria dorme?
Como falar o que desejo
Se: me faltam palavras?

Só sei que sei o que sou
E sou eu poema lírico
Querendo fazer vida poesia
No doce néctar das fantasias
Polinizando a pétala mais bela,
Rosa desabrochando mulher.

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Ubiratan Diniz de Aguiar  é Ministro aposentado do Tribunal de Contas da União e membro da Academia Cearense de Letras. Reside atualmente em Fortaleza (CE)


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Histórias de Vida - Fotografias de Márcia SARTORI


 






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A auditora Marcia Sartori atua na Secretaria das Sessões e suas fotos podem ser vistas no endereço Olhares. Além de fotografar, mantém o blog Em cantos do mundo, cujo principal tema são viagens.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Sonhos, Acordei - Crônica de Ubiratan AGUIAR

Acordei cedo da manhã com um buzinaço ensurdecedor. Os sinos das igrejas repicavam e o foguetório tomara conta da cidade. Parecia que a população por inteiro saíra às ruas vestida de verde amarelo com o sorriso largo nos lábios denotando o orgulho nacional.

Grupos de jovens, mãos entrelaçadas, entoavam o hino da Pátria com o vigor da idade e o fôlego da esperança. Um sentimento coletivo de euforia incendiava a alma das pessoas.

Todos estavam possuídos de uma motivação cívica, conscientes de que logo a seguir deveriam se deslocar para o trabalho nas empresas e órgãos públicos. O sentimento popular apontava para a contribuição a ser proporcionada ao Estado em seu crescimento econômico e na qualidade dos serviços públicos, máxime nas áreas da educação, saúde e segurança, dentre tantos outros reclamados pela sociedade.

O extravasar da emoção estava argamassado, alicerçado nos princípios mais sólidos da ética e da moralidade, pilares fundamentais da cidadania.

Olhei para o relógio e os ponteiros marcavam cinco horas. O mar preguiçoso se espraiava verde nas areias brancas da praia. O firmamento mais azul do que nunca via as brancas nuvens da paz se deslocarem rumo ao infinito. O verde dos bosques, as flores do jardim vicejavam ao leve sopro da brisa matinal no despertar das urbes sob o sol da democracia.

As janelas das casas mostravam-se, em meio ao casario, vestidas com as cores da nação brasileira.

Indormido, pois havia chegado do exterior pela madrugada, não atinava para a explosão de entusiasmo das pessoas, de forma tão ruidosa e espontânea. Procurei informar-me sobre o que estava acontecendo com o primeiro passante: dele ouvi a lúcida explanação sobre o novo momento vivido pelo Brasil. Estava acontecendo o primeiro grande evento dentre os vários programados para aquele ano de 2050 pelo Estado para homenagear cientistas, pesquisadores, estudantes, artistas, profissionais liberais, empresários, agricultores, por sua atuação em favor do desenvolvimento nacional, sob o manto da construção cidadã nas majestosas arenas nacionais.

Apertei as mãos, lancei meu olhar para os céus, Toquei-me por inteiro. Estava acordado. O chão que pisava era mesmo o do solo brasileiro. Havia sido ejetado para o futuro a fim de assistir ao coroamento de meus sonhos mais sagrados de justiça social, correção das desigualdades sociais, econômicas, o fim da corrupção e dos abusos de autoridade.

Havia chegado ao ano da graça em que o povo usufrui do pão de seu trabalho e se delicia com o lazer saudável.

Compreendi naquela hora quão importante é lutar por seus sonhos, trabalhar em cima de ideais, investir na formação de uma gente solidária e fraterna.


Santa utopia de poeta que se torna realidade quando a Nação põe vergonha na cara e aposta em investir no talento, edificando um Estado que tenha e um povo que seja.

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Ubiratan Diniz de Aguiar  é Ministro aposentado do Tribunal de Contas da União e membro da Academia Cearense de Letras. Reside atualmente em Fortaleza (CE)

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Fogueira (ou os livros e sua hora) - Poesia de José OSTERNO


Conta-se uma história em Goiás

(atribuída a um grande Jurista do Direito Agrário),

que se a mulher não implica com os livros do marido,

das duas uma: ou o marido não gosta de livros

ou a mulher não gosta do marido.

Minha mulher
Queimará meus livros,
Quando eu morrer.
E dirá, aliviada e triste:
'Quanto dinheiro jogado fora!'.

Minha filha – a mais velha
Ou a mais nova, não sei -
Intercederá por uma obra
Que lhe é cara: 'Papai,
Gostava tanto deste livro!'.

Minha mulher responderá:
'Ponha uma coisa na sua cabeça,
Seu pai está morto'. Neste tempo,
É verdade, estarei morto. E terá chegado

– também – a hora dos meus livros.

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José Osterno é ex-funcionário do TCU (SECEX-CE) e antigo militante pela Arte, tendo sido co-editor de um jornalzinho de Arte (o Paraler) anos atrás.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Tchékhov - Poesia de José Osterno

Há mais poesia nos contos

de Tchékhov que, por certo,

em muito verso. Há muita poesia

em Tchékhov. Na verdade,

há poesia, sem verso,

no "Amor", na "Brincadeira",

no "Criminoso Intencional".

A certa altura do conto "Saudade",

Tchékhov, sublime, arremata:

"Se o peito de Iona rebentasse

e aquela saudade se derramasse,

inundaria o mundo".

"Quanta poesia, Mano!",

diria Antônio Girão Barroso.
 

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José Osterno é ex-funcionário do TCU (SECEX-CE) e antigo militante pela Arte, tendo sido co-editor de um jornalzinho de Arte (o Paraler) anos atrás.

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